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Crianças desaparecidas são achadas em situação análoga à escravidão no ES

Elas eram obrigadas a vender doces e pedir dinheiro em bares. Guarda Civil de Marataízes localizou as crianças, no último fim de semana, após denúncia

Tempo de leitura: 6min
Publicado em 23/05/2022 às 21h17
Atualizado em 24/05/2022 às 15h07
Crianças desaparecidas há cerca de um ano são encontradas no Sul do ES
Três crianças estavam desaparecidas há cerca de um ano. Crédito: Divulgação | Guarda Civil de Marataízes

Três crianças que estavam desaparecidas há cerca de um ano foram resgatadas na última sexta-feira (20) e no sábado (21), uma em Marataízes, e as outras duas, em Piúma, ambos municípios no Litoral Sul do Estado, em situação análoga à escravidão. As idades das vítimas não foram informadas.

Ao repórter Caio Dias, da TV Gazeta Sul, o secretário Municipal de Segurança de Marataízes, Anderson Gouveia, disse que as crianças eram obrigadas a vender doces e pedir dinheiro em bares.

Em conversa com a reportagem de A Gazeta, uma agente da Guarda Civil de Marataízes — que participou da ação e pediu para não ter o nome divulgado — contou que as mães das crianças estão envolvidas em uma série de golpes aplicados em Cachoeiro de Itapemirim.

Segundo a agente, os pais conseguiram as guardas dos filhos e, por conta disso, as mães fugiram com as crianças. “Elas deixavam sob ‘cuidados’ de uma terceira pessoa, que obrigava os meninos a trabalhar vendendo doces”, relatou.

Crianças desaparecidas há cerca de um ano são encontradas no Sul do ES
Doces vendidos pelas crianças foram apreendidos no momento do resgate das crianças pela Guarda Civil de Marataízes. Crédito: Divulgação | Guarda Civil de Marataízes

A agente da Guarda Civil de Marataízes disse que a abordagem aconteceu após uma denúncia feita por meio do telefone 153, informando sobre uma criança que estava desaparecida há cerca de um ano. O denunciante contou que viu a criança sendo explorada na venda de doces.

"No início, a ocorrência era relacionada a trabalho infantil, de uma criança que supostamente estava desaparecida. Mas depois descobrimos tudo o que estava por trás”, disse a agente.

Segundo ocorrência da Guarda Municipal, a criança foi vista acompanhada de uma mulher de cerca de 25 anos. Após ficar sabendo dos fatos e das características da suspeita e do menor de idade, as buscas foram iniciadas pela Guarda Civil e imagens de videomonitoramento da região ajudaram a corporação a chegar até as crianças.

No local indicado pela denunciante, os agentes da Guarda viram, no interior de uma lanchonete na Avenida Rubens Rangel, a mulher e a criança, e realizaram a abordagem. “A suspeita a todo instante tentou se evadir das perguntas realizadas pelos agentes, inclusive informando um nome falso”, diz a ocorrência da corporação. A equipe flagrou a criança vendendo doces no estabelecimento.

Os agentes da Guarda de Marataízes questionaram se a mulher teria algum documento para comprovar a identidade dela, mas ela alegou estar sem documentos naquele momento. Segundo a ocorrência, durante uma busca na bolsa da suspeita, foi encontrada a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) dela. 

De acordo com a agente que conversou com A Gazeta, no momento da abordagem, a suspeita disse ser prima do menino e afirmou que ele estava ajudando ela na venda de doces.

SUSPEITA EM OCORRÊNCIA DE SEQUESTRO E CÁRCERE PRIVADO

Com o nome da mulher em mãos, a Guarda Civil de Marataízes realizou buscas no sistema e descobriu que um Boletim Unificado (BU) em que ela aparece como suspeita de sequestro e cárcere privado. “A todo tempo ela negava esse fato e o menor corroborava todas as informações passadas pela suspeita, tendo o menor, inclusive, se identificado com um nome falso”, diz a ocorrência sobre o caso. Segundo a corporação, a todo momento a criança olhava para a mulher antes de dar qualquer resposta.

De acordo com o Boletim Unificado, registrado no dia 17 de junho de 2021 pelo pai do menino, a mãe ficou com a guarda dos dois filhos após eles se divorciarem em 2016, e também teve direito a um apartamento, mas se mudou para a casa da irmã. “Ficou lá por uns meses, como se estivesse escondida, mas nada falava sobre o que havia acontecido para ter deixado inexplicavelmente o apartamento”, aponta o registro.

Ainda de acordo com o BU, o pai da criança relatou que, após quatro meses, a ex-esposa ligou para ele dizendo que ela e os meninos estavam indo para Recife, capital de Pernambuco, pois estava namorando um advogado rico. A mulher, segundo o homem, prometia entregar a guarda dos filhos para ele, mas sempre adiava.

No entanto, o pai da criança teria ficado sabendo de um suposto golpe cometido pela sobrinha dela com o namorado, e descobriu que a ex-esposa, na verdade, estava em Cachoeiro de Itapemirim, morando em uma quitinete de três cômodos com os dois filhos, a irmã e o sobrinho.

No boletim, a informação é que a sobrinha e o namorado dela levavam comida para os residentes da quitinete, e quem descobriu a situação teria sido o ex-cunhado dele, que, quando ia visitar o filho, somente o via da porta. A mulher com os filhos ficavam escondidos.

Ao pai que registrou o BU, a proprietária da residência contou, de acordo com o registro, que os filhos dele não saíam de casa e tinham apenas raros contatos visuais por uma janela dos fundos. “Disse que meus filhos estão muito brancos e com cabelo grande, demonstrando que estão em cárcere e sofrendo alienação parental, pois falo com eles por mensagens ou WhatsApp, mas tenho nítida sensação que estão sob supervisão da mãe para não falarem a localização nem passar outros detalhes do que se passam”, relatou o pai no boletim.

O boletim também informou que a proprietária da quitinete falou que a ex-esposa do homem perguntou, alguns dias antes, se a dona do local trocaria um cheque de R$ 13 mil reais, que pode ser fruto do golpe aplicado pela sobrinha da mulher.

DELEGACIA

Diante dos fatos, a mulher foi conduzida pela Guarda Civil de Marataízes para a Delegacia de plantão em Itapemirim, onde a criança também foi apresentada. Na delegacia, o menino relatou que outros dois meninos estavam em uma residência no município de Piúma. Foi realizado contato com o pai da criança, que compareceu ao local. Ele identificou o menor de idade como o filho dele desaparecido há cerca de um ano.

De acordo com o registro da ocorrência, o pai contou que o outro filho dele, também menor de idade, estaria na mesma situação. Além disso, teria outra criança, cujo pai também compareceu à delegacia e informou que o filho estava desaparecido. 

Após todos os fatos terem sido esclarecidos pela Polícia Civil, as crianças foram localizadas e entregues aos responsáveis legais, segundo a Guarda Municipal. Já a mulher, de acordo com a corporação, deixou a delegacia no último sábado (21), e responderá ao processo em liberdade.

A Guarda Civil de Marataízes informou que está à disposição para ajudar a população por meio do telefone 153, e divulgou a rede social @canilgcmmarataizes para contato.

 O QUE DIZ A POLÍCIA CIVIL

Procurada pela reportagem, a Polícia Civil enviou informações disponibilizadas pelo titular da Delegacia Regional de Itapemirim, delegado Djalma Pereira Lemos. De acordo com o delegado, na sexta-feira (20), foram apresentados na delegacia uma mulher de 23 anos e um menino de 12 anos, identificado como sobrinho da apresentada. “Após a autoridade policial ouvir as partes, adotou a decisão de convidar o pai do adolescente, o qual já estava de posse do Termo Judicial de modificação liminar de guarda do filho, e este foi reintegrado à posse do pai”, diz a nota.

Segundo a Polícia Civil, não houve autuação da mulher, pois o adolescente, supostamente vítima de sequestro, se encontrava com a mãe e em companhia da tia. Sobre a denúncia de trabalho infantil, a polícia disse que o fato estará sendo objeto de investigação, pois devido ao horário da apresentação das partes e não havendo o crime de sequestro ou cárcere privado, se entendeu que será necessária uma investigação.

O caso segue sob investigação da Delegacia de Marataízes, onde caberá ao delegado titular tomar as medidas que entender mais adequada para apuração dos fatos. Quanto aos fatos de sequestro e cárcere privado, não existe medida judicial em desfavor da conduzida. Ela foi ouvida e liberada.

Atualização

24 de Maio de 2022 às 15:06

Após publicação desta matéria, a Polícia Civil enviou nota sobre o caso. O texto foi atualizado.

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