Como perícia do ES conseguiu confirmar 1ª morte por bromazolam no Brasil
Passo a passo
Como perícia do ES conseguiu confirmar 1ª morte por bromazolam no Brasil
Substância foi encontrada no organismo de DJ de 37 anos encontrado morto em motel da Serra e, a partir daí, polícia descobriu que ainda não havia relatos dessa situação no país
Bromazolam: droga é comercializada em um selo, e usuários colocam embaixo da língua para consumirCrédito: Divulgação | Polícia Civil
A morte de um DJ dentro de um motel na Serra em julho de 2022 foi o pontapé inicial para a descoberta de uma nova droga que começou a ser comercializada no país: o bromazolam. A substância, que já é relacionada a mais de 200 óbitos nos Estados Unidos, ainda não tinha registro no Brasil, e passou a entrar no rol de drogas proibidas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) por meio do trabalho da perícia da Polícia Civil do Espírito Santo.
A Gazeta preparou um ponto a ponto para explicar como foi o trabalho da polícia até chegar à descoberta que fez com que, a partir de agora, quem estiver portando o bromazolam no Brasil seja preso.
O homem de 37 anos que morreu no motel da Serra não tinha sinais de violência no corpo, e no local do óbito havia indícios do uso de substâncias ilícitas. A partir disso, levantou-se a hipótese de uma intoxicação. O corpo foi encaminhado ao Departamento Médico Legal (DML), onde a médica legista Ana Paula Knak fez a necropsia do cadáver, coletando sangue, urina e conteúdo estomacal para enviar ao laboratório.
Como perícia do ES conseguiu confirmar 1ª morte por bromazolam no Brasil
"Identificamos a substância na amostra que foi encaminhada pela medicina legal, e para nós, foi uma novidade, porque era uma substância que até então nunca tínhamos identificado no laboratório de toxicologia", pontuou a perita Daniela de Paula, chefe do Departamento de Laboratórios Forenses.
Como não havia relatos dessa substância por aqui, os peritos do Espírito Santo começaram a pedir ajuda das polícias de outros Estados, tanto Civil quanto Federal, mas ninguém tinha apreendido algo do tipo.
A partir daí, eles buscaram parcerias de universidades para confirmar o que era a substância encontrada. "Para que a gente pudesse definir este caso, foi importante a participação do professor José Luiz da Costa, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pois lá ele tinha o padrão dessa substância, que é importante para que a gente possa fazer a comparação. Utilizando isso, foi possível concluir e definir quanto tinha no organismo daquele indivíduo", detalhou Daniela.
Após a descoberta
No organismo do homem morto, conforme os exames, havia álcool, sertralina, viagra, cocaína e bromazolam. Sabendo disso, a perícia concluiu que a substância estava relacionada e contribuiu para esse óbito, se tornando o primeiro caso registrado aqui no Brasil.
"O que a gente sabe é que não é uma substância de uso terapêutico para tratar doença nem nada do tipo. Não é comercializada no mundo. E geralmente ela não é encontrada nas vítimas de forma isolada, com o uso sozinho, e também foi o caso dessa vítima da Serra: não tinha só isso na corrente sanguínea dele, então não dá para afirmar que foi somente o bromazolan que causou esse óbito, mas ele contribuiu"
Ana Paula Knak - Médica legista
Rol das substâncias proibidas
Com a descoberta da morte e outras apreensões que aconteceram logo em seguida, a perícia do Espírito Santo comunicou o perigo para a Anvisa, responsável por realizar a listagem das substâncias proibidas e que têm um controle especial no nosso país.
O comunicado foi feito em novembro, e, em dezembro, o bromazolam entrou para a lista, segundo a perita Daniela. "Até aquele momento (antes de estar na lista), o bromazolam, se fosse pego com um traficante, não seria considerado tráfico. Acho que foi essa a contribuição que o Espírito Santo deu, porque permite que, agora, as apreensões já sejam caracterizadas como tráfico de drogas", afirmou.
Detalhes das outras apreensões
Dois dias depois da morte do homem no motel, 3.596 selos contendo um pó foram encontrados com um suspeito em Guarapari. Ele estava com outras drogas, por isso acabou preso. Os selos foram encaminhados para a perícia no dia 20 de julho e aí, juntamente com pesquisadores da Unicamp e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), descobriram que se tratava do bromazolam.
E não parou por aí: em outubro teve mais apreensão, mas de pouca quantidade, na Praia da Costa, em Vila Velha. Em fevereiro deste ano, outra pequena quantidade foi achada com um suspeito em Guarapari.
Como a droga é usada
O perito Victor da Rocha Fonseca, do Laboratório de Química Forense, explicou como é que as pessoas vêm usando a nova droga aqui no Brasil. Ele comentou que, no exterior, as pessoas comercializam no formato de pó ou comprimido. Nas amostras encontradas no Espírito Santo, elas vieram de forma diferente, em selos.
"São selos em papel. Desses selos, são extraídos pequenos selos e a pessoa faz a ingestão sublingual. Eles colocam esse papel em contato com a mucosa, embaixo da língua, vai ter a absorção da substância que vai ser direcionada à corrente sanguínea", relatou o perito.
Quais os efeitos?
Segundo os especialistas, o bromazolam é da mesma classe de medicamentos como Rivotril e Clonazepam, depressores do sistema nervoso central. Os efeitos são de sedação, sonolência, diminuição visual e relaxamento muscular. Mas também pode levar à parada cardiorrespiratória.
Como é uma substância nova, os perigos são grandes, já que não se sabe exatamente como ela se comporta e nem quais quantidades são as mais prejudiciais.
Alerta nos Estados Unidos
Nos Estados Unidos, existe um alerta direcionado para a saúde pública, laboratórios e médicos, relatando o aumento de casos envolvendo esta substância. Foram registrados 236 óbitos com o envolvimento do bromazolam, de 2019 até junho do ano passado.
O que diz a Anvisa | Nota na íntegra
"Não existe medicamentos registrado no Brasil com a substância Bromazolam. Isso significa que o produto não está autorizado para uso no país.
O Bromazolam é uma substância de controle especial. A substância foi incluída na lista de B1 (Lista de Substâncias Psicotrópicas) em 1/12/2022. As substâncias controladas pela Portaria SVS/MS 344/1998 também se enquadram no conceito de drogas, estabelecido pela Lei nº 11.343/2006.
O processo de atualização da lista de substâncias controladas é um processo contínuo da Anvisa, que tem a responsabilidade de atualizar as listas de produtos sujeito à controle especial e regulamentar a cadeia legal de medicamentos.
O combate a produtos clandestinos ou drogas ilícitas cabe aos órgãos policiais."