Em carta enviada no último dia 15 de junho, a Unimed — que possui mais de 375 mil usuários no Espírito Santo — anuncia que vai promover cortes em vários contratos de médicos cooperados, que variam de 15% a 25%. Eles atingem desde os valores pagos pela Unimed aos médicos em consultas e cirurgias até a rede de serviços credenciados. As mudanças decorrem da pandemia e seus reflexos, como a alta dos custos hospitalares e aumento da demanda por atendimento, afirma a cooperativa.
No documento, a que A Gazeta teve acesso, destaca-se que as medidas começam a valer a partir deste mês de junho e visam a superar o “gravíssimo cenário” que desafia todo o sistema de saúde suplementar. “A Unimed Vitória está adotando medidas enérgicas e imediatas a partir deste mês, como forma de prover a sustentabilidade da cooperativa”.
O objetivo, segundo o documento, “é manter o equilíbrio econômico-financeiro, sem impactar a assistência aos beneficiários e garantir a segurança de uma remuneração justa aos seus cooperados."
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O QUE VAI SOFRER CORTES
As medidas anunciadas pela Unimed vão afetar, em sua maioria, os contratos de médicos e credenciados, além dos honorários dos próprios médicos. Mas também será priorizada a rede própria de atendimento.
- Rede credenciada - Todos os contratos existentes com a rede prestadora credenciada de serviços assistenciais - centros médicos, clínicas, laboratórios, centros de diagnósticos, maternidade, médicos - estão sendo revistos até alcançarem no mínimo 25% de redução nos seus valores atuais.
- Fornecedores - Os contratos com fornecedores gerais serão renegociados, por meio de revisão de escopo, prazos e custos, com o objetivo de redução de até 15% nos seus valores atuais.
- Auditoria no escopo da atuação médica - Implementação imediata de um rigoroso processo de revisão da auditoria médica em todo o seu escopo (foco) de atuação para garantir atendimento com racionalização do custo assistencial.
- Prioridade para a rede própria da Unimed - As Unidades de Recursos Próprios da Unimed Vitória - hospital, maternidade, laboratórios, centro de diagnóstico - serão priorizadas, por meio da Central de Regulação da cooperativa, de forma a contribuir para a redução dos custos com a rede prestadora credenciada.
- Pagamento dos médicos - Revisão da política de pagamento da produção médica (consultas, honorários clínicos, cirúrgicos, Serviço Auxiliar de Diagnóstico e Tratamento - SADT -, honorários da diretoria e conselhos). Haverá uma redução de 15% no pagamento da produção médica. Essa medida, a princípio, valerá de junho a dezembro de 2022.
O diretor-presidente da Unimed Vitória, Fernando Ronchi, afirma que os mais de 375 mil usuários do plano no Espírito Santo não vão ser afetados pelas mudanças
“Temos uma rede própria forte que atende, dependendo do serviço, um grande percentual da nossa demanda. Um exemplo é a oncologia que atende 80% da demanda. O nosso hospital, o Cias, atende 35% da demanda. O que estamos fazendo é negociando com os fornecedores”, explica.
Ronchi classifica a situação como um “momento passageiro”. “Estas medida são importantes para o fortalecimento do negócio. A Unimed tem uma rede de prestadores, e eles nos têm como parceiros. Estamos negociando com cada um para que não se tenha perda de qualidade, sem que os beneficiários deixem de ser atendidos”, acrescenta Ronchi.
O QUE MOTIVARAM OS CORTES
Os motivos que levaram aos cortes nos contratos e honorários, que variam de 15% a 25%, decorrem dos impactos gerados não somente pela pandemia de Covid-19, como também pela alta na demanda de exames e procedimentos.
No documento enviado aos médicos da Unimed é destacado que há alguns meses os cooperados vinham sendo alertados sobre o problema.
- Reajuste negativo - Em maio de 2021, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) informou que o reajuste para os planos de saúde seria negativo (-8,19%). Segundo Ronchi, isto gerou para a Unimed uma perda de receita cerca de R$ 40 milhões.
- Alta do custo hospitalar - É apontado no documento que desde a sua criação, a Variação dos Custos Médicos Hospitalares (VCHM) sofreu a sua maior alta, que chegou a 27,7%.
- Impacto da Covid - De abril de 2020 a maio de 2022 o custo assistencial da Covid-19 alcançou R$ 270 milhões. “Um custo não esperado e não orçado para ninguém. Recursos gastos com exames e internações, fora os pacientes com sequelas da Covid-19”, observa Ronchi.
- Aumento do número de atendimentos - Em 2020, em decorrência da Covid, poucos procuraram os serviços médicos. Mas em 2021, a procura por atendimento aumentou, com crescimento das buscas por consultas, procedimentos, cirurgias, terapias, e que vem se mantendo em 2022, relata Ronchi.
Apesar do cenário adverso, o diretor-presidente afirma que a Unimed se mantém “sólida e com os seus compromissos em dia”.
“Não temos problemas financeiros, não atrasamos pagamentos, os médicos são pagos em 30 dias, mas as medidas são necessárias para garantir a sustentabilidade face a um grande custo. Estamos sentindo um grande impacto financeiro, o momento é desafiador para o mercado de saúde suplementar, mas estamos entre as 10 maiores empresas capixabas, cumprimos todas as regras definidas pela ANS”, ressalta Ronchi.
IMPACTO DE NOVO REAJUSTE É MAIS LENTO
Em 28 de maio deste ano, a ANS aprovou um reajuste de 15,5% para os planos de saúde individuais e familiares.
Mas os reflexos desse aumento nas receitas da Unimed são demorados, considerando que ele é aplicado na data de vencimento de cada contrato. “O impacto demora mais de um ano. O mesmo aconteceu com o reajuste negativo de -8,19%”, explica Fernando Ronchi.
Paralelamente, destaca Ronchi, o país vive sob uma inflação alta, com insumos da saúde — como medicamentos e materiais, muitos deles importados — com custos mais elevados por sofrerem com influência do dólar.
“Apesar desses custos elevados, demos o melhor atendimento, o Cias teve os melhores indicadores de taxa de sobrevivência entre os hospitais, segundo a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), com um dos melhores indicadores do Brasil. E vamos continuar oferecendo o melhor tratamento”, conclui o diretor-presidente da Unimed Vitória.