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Pix: bancos e fintechs fazem até sorteio para cliente cadastrar chave

Mesmo com TED e DOC sendo bem mais lucrativos que o novo sistema, instituições bancárias iniciaram uma verdadeira corrida para fidelizar e atrair novos consumidores para cadastro. Entenda os motivos

Publicado em 08/10/2020 às 05h02
Atualizado em 08/10/2020 às 08h00
Pix
Pix vai permitir transações financeiras em segundos até para outros bancos com tarifa zero para pessoas físicas e funcionamento 24h por dia. Crédito: Banco Central/Divulgação

Com a entrada em operação marcada apenas para 16 de novembro, o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix,  já tem causado um estardalhaço no setor financeiro. Apenas nos dois primeiros dias de cadastro, mais de 10 milhões de chaves foram criadas, um movimento que tem sido incentivado por bancos tradicionais e fintechs, que estão oferecendo condições especiais e fazendo até sorteios para incentivar os clientes a cadastrarem suas chaves Pix.

Desenvolvido pelo Banco Central, o sistema que deve substituir DOC, TED e estar disponível 24 horas nos sete dias da semana acirrou a disputa no setor. Mesmo não havendo um prazo limite para cadastro ou sequer ser necessário ter uma chave, uma vez que será possível fazer transações informando número de conta, banco de destino e agência, essa primeira fase de implantação do modelo tem mostrado certa correria, sobretudo de instituições financeiras.

As chaves Pix são "nomes de usuários" por onde você vai poder pagar e receber de forma simples, informando apenas o número de celular, o CPF, e-mail ou ainda um código avulso que o banco gera. Só é possível ter um tipo de chave em uma instituição. Por exemplo: se você tem contas nos bancos A, B e C, pode fazer todas as chaves em único banco ou ainda optar por usar o e-mail como chave no banco A, o celular no B e o CPF no banco C.

Uma das primeiras ações de incentivo foi anunciada pelo Banco do Brasil, que tem enviado números da sorte para clientes pessoa física e jurídica que cadastram chave Pix. Com esses números, eles concorrem a 237 prêmios que somam R$ 700 mil. Os clientes cadastrados na promoção também ganharão números da sorte realizando transações com suas chaves Pix para concorrer aos sorteios até o dia 5 de dezembro de 2020.

O Nubank, que já oferecia transferências gratuitas e ilimitadas mesmo para outros bancos, lançou uma promoção com sorteio de "mimos" e surpresas de até R$ 50 mil para clientes que registrarem suas chaves e utilizarem o novo método para pagar suas contas e compras ou fazer transferências, também enviando números da sorte para cada chave cadastrada.

Já o Santander vai sortear dois prêmios de R$ 1 milhão cada, um para cliente pessoa física e outro para pessoa jurídica, com envio de 5 números da sorte pelo cadastro, sendo que quem cadastra chaves Pix no banco com CPF e celular ganha o dobro de números da sorte (10). Além do sorteio, o banco também oferece 10 dias sem juros por mês no limite da conta, desde que o cliente mantenha o CPF e número de celular como chaves Pix (e isso será checado mensalmente).

MAS, AFINAL, POR QUE ESSE MOVIMENTO?

Muitos podem ter estranhado esse incentivo dos bancos ao Pix, ainda mais porque os serviços de TED e DOC, que devem minguar com o novo concorrente, são bem mais lucrativos que o sistema instantâneo, que não tem custo para pessoas físicas, por exemplo. A agência americana de classificação de risco Moody's estima que os bancos brasileiros percam até 8% das receitas com tarifas por causa do Pix.

Como a maioria dos brasileiros bancararizados possui conta em mais de uma instituição financeira, a corrida dessas empresas é para que seus clientes cadastrem primeiro suas chaves Pix com elas. O próprio Banco do Brasil admite tática: "O objetivo é fazer com que os clientes cadastrem no BB as três chaves principais - CPF, telefone e e-mail", informou.

O professor de Finanças da Fucape e doutor em Ciências Contábeis Fernando Galdi avalia que o movimento se dá pela restrição de uma chave estar atrelada a uma única conta. "É uma tentativa de sair na frente e ter um maior volume de transações, uma vez que a tendência é que o cliente use mais o Pix onde ele cadastrou chaves mais simples, como celular e e-mail. Já a chave alfanumérica, que o banco gera números e letras aleatoriamente, é muito mais difícil de decorar e deve ser menos usada", analisa.

Fernando Galdi

Professor de Finanças da Fucape e doutor em Ciências Contábeis

"Como o Pix vai aos poucos reduzir as movimentações via TED e DOC, os bancos estão tentando fidelizar os clientes para usar o Pix dentro da própria instituição. Mesmo que seja menos rentável, assim esses clientes continuam usando outros produtos e serviços que a instituição oferece e que ela pode rentabilizar"

Além de uma tentativa de fidelização dos atuais clientes, a tática também mira atrair novos consumidores, de acordo com o especialista em automação fiscal Bruno Aguilar Soares. "É importante trazer essas pessoas para experimentar. Captar esse cliente agora é uma forma de ampliar seus negócios, diante da redução de custos que fará as pessoas optarem pelo Pix. De certa maneira, é uma forma de proteção dessas empresas", explica.

O incentivo também se deve ao fato de que, a partir de 2021, o Pix já deve ir além de transferências e pagamentos e agregar novas funcionalidades, como saques em estabelecimentos comerciais, débito automático, parcelamento de compras (como se fosse um cartão de crédito) e até financiamento de imóveis e carros. Há expectativa ainda de uso por empresas de telefonia e até no pagamento do transporte público.

"As empresas querem garantir [que o cliente tenha chave Pix com elas], porque uma vez que ele começou a utilizar numa plataforma A, ele tende a continuar usando mais por ela, onde é mais fácil, até quando tiver toda essa gama de produtos. E como você pode ter em mais de uma instituição, os bancos e  fintechs e outros tipos de empresas vão ter que disputar esse mercado", afirma Soares.

ATUALIZAR PARA SOBREVIVER

Para os especialistas, deve-se olhar para este fenômeno ainda pelo lado de uma atualização necessária para a sobrevivência. Seria um mudança tecnológica comparável à das operadoras de telefonia móvel, que hoje ofertam ligações e torpedos apenas como serviços acessórios e têm a internet móvel como carro-chefe, uma vez que o pensamento do consumidor mudou e elas se viram forçadas a acompanhar essa evolução.

"Aquele banco tradicional em que o cliente fica horas na fila para sacar e fazer um pagamento está fadado a sumir. É uma nova realidade. As pessoas querem bom atendimento, bons serviços e custos baixos. E isso está começando a acontecer", comenta Fernando Galdi. Ele destaca ainda que as instituições que não investirem pesado para atender a esses desejos dos consumidores vão perder clientes.

"A gente tem o Pix começando agora, o open banking vindo aí, e tudo isso é um ambiente novo e desafiador para os bancos. São medidas para aumentar a competitividade no setor. Então, eles vão ter que se reinventar para não perder clientes para concorrentes com custos menores, que oferecem mais atrativos e menos burocracia. Aqueles bancos que não se adequarem a essa nova realidade, investindo maciçamente em tecnologia e tendo bons incentivos para manter o cliente, devem perdê-lo", diz.

O especialista em automação fiscal Bruno Aguilar Soares lembra ainda que a chegada dessas novidades vai promover uma maior bancarização no país, trazendo mais oportunidades para bancos e outros empresas. "A competitividade vai ser muito presente no setor. Como isso vai incluir bancos, fintechs, empresas de comércio eletrônico, de telefonia e etc, cada um vai procurar ampliar seu ecossistema de clientes e buscar inovações que vão trazer um novo cenário nos meios de pagamentos".

No final das contas, o grande beneficiado por toda essa competição será o consumidor, segundo Soares, que terá taxas cada vez menores e serviços de mais qualidade.

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