Sair
Assine
Entrar

Sensibilidade

Vídeo viraliza com cena de carinho entre mulher e marido com Alzheimer no ES

Desde 2016, Sônia Pinheiro cuida de Gilmar, diagnosticado com a doença quando tinha só 54 anos; dança seguida de abraço caloroso emocionou internautas

Publicado em 09 de Dezembro de 2022 às 16:11

Larissa Avilez

Publicado em 

09 dez 2022 às 16:11
Com mais de 500 mil visualizações, um vídeo gravado no Espírito Santo tem feito sucesso na internet ao longo das últimas semanas. Na publicação, um casal protagoniza uma cena de carinho: uma mulher abraça o marido – diagnosticado com Alzheimer – e dança com ele. No final, ela também pega os braços do companheiro e os coloca em torno do corpo, para se sentir abraçada.
Emocionante, o gesto é protagonizado por Sônia Regina Nascimento Pinheiro e Gilmar Antônio Pinheiro, de 58 e 60 anos, respectivamente. Casados há quase quatro décadas, eles tiveram três filhas e receberam a notícia da doença em 2016. Apesar de duro, o diagnóstico não afetou o companheirismo.
Gilmar Antônio Pinheiro e Sônia Regina Nascimento Pinheiro se casaram em janeiro de 1986
Gilmar Antônio Pinheiro e Sônia Regina Nascimento Pinheiro se casaram em janeiro de 1986 Crédito: Acervo familiar
Moradores do bairro Glória, em Vila Velha, eles passam 24 horas por dia juntos. Preocupada com o marido, Sônia não tem coragem de deixá-lo com ninguém e se dedica exclusivamente aos cuidados que Gilmar necessita. Na sala de casa, sem saber, os dois foram flagrados – um momento de romantismo em meio a uma rotina nada fácil.

A difícil descoberta

Era final de 2016, quando Gilmar começou a apresentar os primeiros lapsos de memória. "Passei a desconfiar que tinha algo errado ao começar a notar que ele deixava o chinelo do lado de fora da casa, largava as torneiras abertas e esquecia o fogo acesso após fazer o café", lembra a esposa.
Na época, ele era o principal provedor da casa: trabalhava de dia como pintor, profissão que aprendeu ainda adolescente com o pai, e de noite trabalhava como porteiro. Enquanto isso, a mulher buscava rendas extras vendendo produtos e fazendo faxinas, além de cuidar da casa e das filhas.
À esquerda, Sônia Regina Nascimento Pinheiro, ao lado do marido Gilmar Antônio Pinheiro; atualmente, ele não tem mais independência para se locomover
À esquerda, Sônia Regina Nascimento Pinheiro, ao lado do marido Gilmar Antônio Pinheiro; atualmente, ele não tem mais independência para se locomover Crédito: Acervo familiar
Ao notar o comportamento estranho do marido, Sônia conversou com um colega de trabalho dele e descobriu que atitudes semelhantes também aconteciam no serviço. "Ele pintou paredes com cor errada, desligava elevadores, trancava a portaria com corrente e descia o lixo só de alguns andares", conta.
No entanto, o diagnóstico correto demorou cerca de quatro meses para chegar. "Fomos em neurologistas e psiquiatras que disseram que ele tinha demência, estresse e até epilepsia. Só depois que fizemos um exame é que descobriram que se tratava de Alzheimer e esquizofrenia", diz Sônia.
No início de 2017, quando a descoberta aconteceu, Gilmar já não compreendia ou reagia à realidade como de costume. "Ele não entendeu a gravidade, mas minha reação foi de espanto e surpresa. Na família dele não tinha ninguém com a doença e não estava preparada. O meu chão se abriu", desabafa.
"A doença avançou tão rápido que, em menos de um ano, ele já não lembrava o nome das filhas ou o meu nem que eu era esposa dele"
Sônia Regina Nascimento Pinheiro - Dona de casa
Sem cura, o Alzheimer é uma doença neurodegenerativa de causa ainda desconhecida que afeta principalmente a memória, mas também pode comprometer a comunicação e os movimentos. Na época, Gilmar já estava perdendo massa encefálica em três regiões.

"Quase enlouqueci"

A partir de então, o casal viu a rotina mudar por completo. Com os especialistas ainda tentando acertar a dosagem adequada dos remédios, Sônia admite que "quase enlouqueceu" por não saber lidar com o novo comportamento do marido, muitas vezes inquieto e até agressivo com ela.
"No começo foi uma loucura. Ele falava a noite inteira e acordava estressado. Teve uma época em que ele me batia na hora do banho e cuspia na minha cara"
Sônia Regina Nascimento Pinheiro - Dona de casa
Atualmente, sem independência para se mover, Gilmar dorme em uma cama hospitalar que fica na sala de casa. Sem controle sobre as evacuações, ele precisa usar fralda e é trocado cerca de quatro vezes por dia. Para se alimentar, também depende de alguém dar a comida na boca dele.
"Ele não consegue escovar os dentes, então eu faço uma limpeza com gaze antisséptica, mas é preciso ter cuidado para ele não morder o meu dedo. Uma banana, por exemplo, é preciso segurar, porque senão ele joga ela no chão, porque não sabe do que se trata ou para que serve", detalha Sônia.

Cuidar é única opção

Apesar de todas as dificuldades que a vida impôs, Sônia nunca cogitou deixar o companheiro e até largou a carreira de assistente social que estava prestes a começar em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo. Hoje, com a rotina reorganizada, ela só ressalta o quanto é grata a Gilmar.
Sônia Pinheiro conta que ela e o marido Gilmar sempre foram muito companheiros e saíam toda semana para tomar uma cerveja na MUG
Sônia Pinheiro conta que ela e o marido Gilmar sempre foram muito companheiros e saíam toda semana para tomar uma cerveja na MUG Crédito: Acervo familiar
"Ele me ajudou muito na época da faculdade, com apostilas, lanches e transporte. Quando passei no concurso da prefeitura, estávamos descobrindo a doença dele e não ia ter como eu ir nem deixar ele aqui. Deus vai nos capacitando e hoje, com os medicamentos ajustados, nossa rotina é tranquila", diz.
"É o mínimo que posso fazer por ele. É gratidão pelo maridão que ele foi para mim, o pai abençoado que foi para as minhas filhas. Não tenho nada para reclamar"
Sônia Regina Nascimento Pinheiro - Dona de casa
Ainda assim, ela revela que pede, toda noite, que Deus renove as forças dela – e, segundo Sônia, ele tem feito isso. "Nunca, na minha vida, eu pensei passar por isso, mas tenho dado o melhor de mim. Se um dia Deus resolver levá-lo, vou ficar com a consciência tranquila, porque fiz o meu melhor", afirma.

O vídeo: um registro de carinho

Quem filmou o momento de carinho entre Sônia e Gilmar foi a filha caçula do casal, que mora com os pais, em Vila Velha. Já a responsável pela publicação do vídeo foi a primogênita, Rafaela Nascimento Pinheiro, de 35 anos. Sem esperar tanta repercussão, ela só queria mostrar a cena para a família.
No cento da foto, Sônia e Gilmar, rodeados das três filhas (Rafaela à esquerda, Mirella atrás e Izabela à direita) e dos quatro netas (Danilo à esquerda, Bento à frente, Enrico à direita e Maria no colo)
No cento da foto, Sônia e Gilmar, rodeados das três filhas (Rafaela à esquerda, Mirella atrás e Izabela à direita) e dos quatro netas (Danilo à esquerda, Bento à frente, Enrico à direita e Maria no colo) Crédito: Acervo familiar
"Minha mãe tinha acabado de trocar o meu pai e o segurou para dar um abraço nele, além de pegar o braço dele para poder abraçá-la. Minha irmã sacou o celular e mandou a filmagem no nosso grupo de Whatsapp. Eu achei tão genuíno, tão bonito... que quis compartilhar", fala, com a voz emocionada.
Apesar de algumas críticas criticando Gilmar aparecer de fralda nas imagens, a grande maioria dos comentário é positiva. "O vídeo é para mostrar o amor, não é sobre vaidade. As mensagens serviram como uma pequena ajuda para a minha mãe continuar e pode dar força para outras pessoas", pondera.
"Eu fico admirada e encantada com a união dos meus pais. O vídeo ter tomado essa proporção é uma forma de ajudá-los, porque sou casada e tenho três crianças em casa e sei que deveria ser mais presente"
Rafaela Nascimento Pinheiro - Dona de casa
Sem saber que estava sendo filmada, muito menos que o vídeo faria sucesso nas redes sociais, Sônia ficou feliz com os retornos. "Essa doença parece que maltrata mais a gente, que está em volta, do que a pessoa e muitos se identificaram. Sempre precisamos de palavras de carinho e conforto", comenta.
Com o espaço, ela aproveita para deixar uma mensagem. "Que as pessoas tenham força, coragem e que não abandonem aqueles que estão necessitados e carentes de cuidado, de atenção especial. Todo mundo é capaz de cuidar com muito amor e carinho de uma pessoa com Alzheimer", conclui.

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Renda, moeda, dinheiro, riqueza
Veja se você está entre os mais ricos ou mais pobres do Brasil
O prefeito de Afonso Cláudio, Luciano Pimenta, e o ex-vereador Tilim Neves
Prefeito e ex-vereador de Afonso Cláudio trocam socos e vão parar em delegacia
Imagem de destaque
Café da manhã no Dia das Mães: veja como incluir o ovo no cardápio

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados