Com mais de 500 mil visualizações, um vídeo gravado no Espírito Santo tem feito sucesso na internet ao longo das últimas semanas. Na publicação, um casal protagoniza uma cena de carinho: uma mulher abraça o marido – diagnosticado com Alzheimer – e dança com ele. No final, ela também pega os braços do companheiro e os coloca em torno do corpo, para se sentir abraçada.
Emocionante, o gesto é protagonizado por Sônia Regina Nascimento Pinheiro e Gilmar Antônio Pinheiro, de 58 e 60 anos, respectivamente. Casados há quase quatro décadas, eles tiveram três filhas e receberam a notícia da doença em 2016. Apesar de duro, o diagnóstico não afetou o companheirismo.
Moradores do bairro Glória, em Vila Velha, eles passam 24 horas por dia juntos. Preocupada com o marido, Sônia não tem coragem de deixá-lo com ninguém e se dedica exclusivamente aos cuidados que Gilmar necessita. Na sala de casa, sem saber, os dois foram flagrados – um momento de romantismo em meio a uma rotina nada fácil.
A difícil descoberta
Era final de 2016, quando Gilmar começou a apresentar os primeiros lapsos de memória. "Passei a desconfiar que tinha algo errado ao começar a notar que ele deixava o chinelo do lado de fora da casa, largava as torneiras abertas e esquecia o fogo acesso após fazer o café", lembra a esposa.
Na época, ele era o principal provedor da casa: trabalhava de dia como pintor, profissão que aprendeu ainda adolescente com o pai, e de noite trabalhava como porteiro. Enquanto isso, a mulher buscava rendas extras vendendo produtos e fazendo faxinas, além de cuidar da casa e das filhas.
Ao notar o comportamento estranho do marido, Sônia conversou com um colega de trabalho dele e descobriu que atitudes semelhantes também aconteciam no serviço. "Ele pintou paredes com cor errada, desligava elevadores, trancava a portaria com corrente e descia o lixo só de alguns andares", conta.
No entanto, o diagnóstico correto demorou cerca de quatro meses para chegar. "Fomos em neurologistas e psiquiatras que disseram que ele tinha demência, estresse e até epilepsia. Só depois que fizemos um exame é que descobriram que se tratava de Alzheimer e esquizofrenia", diz Sônia.
No início de 2017, quando a descoberta aconteceu, Gilmar já não compreendia ou reagia à realidade como de costume. "Ele não entendeu a gravidade, mas minha reação foi de espanto e surpresa. Na família dele não tinha ninguém com a doença e não estava preparada. O meu chão se abriu", desabafa.
"A doença avançou tão rápido que, em menos de um ano, ele já não lembrava o nome das filhas ou o meu nem que eu era esposa dele"
Sem cura, o Alzheimer é uma doença neurodegenerativa de causa ainda desconhecida que afeta principalmente a memória, mas também pode comprometer a comunicação e os movimentos. Na época, Gilmar já estava perdendo massa encefálica em três regiões.
"Quase enlouqueci"
A partir de então, o casal viu a rotina mudar por completo. Com os especialistas ainda tentando acertar a dosagem adequada dos remédios, Sônia admite que "quase enlouqueceu" por não saber lidar com o novo comportamento do marido, muitas vezes inquieto e até agressivo com ela.
"No começo foi uma loucura. Ele falava a noite inteira e acordava estressado. Teve uma época em que ele me batia na hora do banho e cuspia na minha cara"
Atualmente, sem independência para se mover, Gilmar dorme em uma cama hospitalar que fica na sala de casa. Sem controle sobre as evacuações, ele precisa usar fralda e é trocado cerca de quatro vezes por dia. Para se alimentar, também depende de alguém dar a comida na boca dele.
"Ele não consegue escovar os dentes, então eu faço uma limpeza com gaze antisséptica, mas é preciso ter cuidado para ele não morder o meu dedo. Uma banana, por exemplo, é preciso segurar, porque senão ele joga ela no chão, porque não sabe do que se trata ou para que serve", detalha Sônia.
Cuidar é única opção
Apesar de todas as dificuldades que a vida impôs, Sônia nunca cogitou deixar o companheiro e até largou a carreira de assistente social que estava prestes a começar em Santa Teresa, na Região Serrana do Espírito Santo. Hoje, com a rotina reorganizada, ela só ressalta o quanto é grata a Gilmar.
"Ele me ajudou muito na época da faculdade, com apostilas, lanches e transporte. Quando passei no concurso da prefeitura, estávamos descobrindo a doença dele e não ia ter como eu ir nem deixar ele aqui. Deus vai nos capacitando e hoje, com os medicamentos ajustados, nossa rotina é tranquila", diz.
"É o mínimo que posso fazer por ele. É gratidão pelo maridão que ele foi para mim, o pai abençoado que foi para as minhas filhas. Não tenho nada para reclamar"
Ainda assim, ela revela que pede, toda noite, que Deus renove as forças dela – e, segundo Sônia, ele tem feito isso. "Nunca, na minha vida, eu pensei passar por isso, mas tenho dado o melhor de mim. Se um dia Deus resolver levá-lo, vou ficar com a consciência tranquila, porque fiz o meu melhor", afirma.
O vídeo: um registro de carinho
Quem filmou o momento de carinho entre Sônia e Gilmar foi a filha caçula do casal, que mora com os pais, em Vila Velha. Já a responsável pela publicação do vídeo foi a primogênita, Rafaela Nascimento Pinheiro, de 35 anos. Sem esperar tanta repercussão, ela só queria mostrar a cena para a família.
"Minha mãe tinha acabado de trocar o meu pai e o segurou para dar um abraço nele, além de pegar o braço dele para poder abraçá-la. Minha irmã sacou o celular e mandou a filmagem no nosso grupo de Whatsapp. Eu achei tão genuíno, tão bonito... que quis compartilhar", fala, com a voz emocionada.
Apesar de algumas críticas criticando Gilmar aparecer de fralda nas imagens, a grande maioria dos comentário é positiva. "O vídeo é para mostrar o amor, não é sobre vaidade. As mensagens serviram como uma pequena ajuda para a minha mãe continuar e pode dar força para outras pessoas", pondera.
"Eu fico admirada e encantada com a união dos meus pais. O vídeo ter tomado essa proporção é uma forma de ajudá-los, porque sou casada e tenho três crianças em casa e sei que deveria ser mais presente"
Sem saber que estava sendo filmada, muito menos que o vídeo faria sucesso nas redes sociais, Sônia ficou feliz com os retornos. "Essa doença parece que maltrata mais a gente, que está em volta, do que a pessoa e muitos se identificaram. Sempre precisamos de palavras de carinho e conforto", comenta.
Com o espaço, ela aproveita para deixar uma mensagem. "Que as pessoas tenham força, coragem e que não abandonem aqueles que estão necessitados e carentes de cuidado, de atenção especial. Todo mundo é capaz de cuidar com muito amor e carinho de uma pessoa com Alzheimer", conclui.