Uma pesquisa iniciada há quase três décadas e que teve parte fundamental de seu desenvolvimento no Espírito Santo agora está no centro de um esforço internacional de padronização para modelos de inteligência artificial (IA).
O trabalho do professor Giancarlo Guizzardi, colunista de IA de A Gazeta, deu origem à chamada UFO (Unified Foundation Ontology, ou Ontologia de Fundamentação Unificada), uma estrutura que busca organizar e representar conceitos do mundo real de maneira que possam ser compreendidos por sistemas computacionais.
A pesquisa, que começou durante o doutorado de Guizzardi na Holanda, passou também pela Itália e ganhou no Brasil — especialmente no Espírito Santo — uma parte essencial de seu desenvolvimento. Segundo o pesquisador, a equipe central responsável pelo modelo é formada por cinco pessoas, quatro delas capixabas e uma do Rio de Janeiro.
Agora, a UFO está entre os modelos que despontam internacionalmente no processo de padronização de ontologias de fundamentação conduzido pela Organização Internacional de Normalização (ISO). A entidade é responsável pela criação de padrões utilizados em diferentes áreas, incluindo processos industriais e desenvolvimento de software.
Na filosofia, o termo ontologia está relacionado ao estudo da existência e às diferentes maneiras de existir. Na computação, a ideia é aplicada à construção de representações formais sobre elementos do mundo real, como objetos, eventos, processos e relações.
Ontologia é uma disciplina que vem da filosofia e quer dizer o estudo da existência. É uma maneira de fazer análise sobre o que existe e quais são as diferentes maneiras de existir
Giancarlo Guizzardi, pesquisador de IA
Na computação, esse tipo de representação permite descrever de forma estruturada conceitos que serão utilizados por sistemas. Um exemplo dado pelo pesquisador é o de uma eleição: para que um computador represente o conceito, é necessário estabelecer formalmente o que são candidatos, campanhas, votação, eventos e processos.
A UFO funciona justamente como uma base para a construção dessas representações. A proposta é estabelecer conceitos mais gerais, que possam ser utilizados como fundamento para diferentes áreas e modelos computacionais.
Todos esses assuntos, inclusive, foram abordados por Giancarlo em sua coluna mensal sobre IA em A Gazeta e, posteriormente, foram condensados em um livro, intitulado "Quem tem medo do robô mau?", que será publicado no próximo dia 9 de setembro.
A discussão ganhou uma nova dimensão com o avanço da inteligência artificial. Guizzardi explica que existem diferentes formas de IA. Entre elas estão os sistemas baseados em aprendizagem de máquina, como os grandes modelos de linguagem utilizados atualmente.
Esses sistemas analisam grandes volumes de dados e identificam padrões estatísticos. O problema, segundo o pesquisador, é que eles não possuem necessariamente uma representação direta do mundo sobre o qual estão falando.
Um sistema pode produzir informações sobre uma eleição sem ter uma representação formal do que é uma eleição como processo, com eventos, participantes e relações temporais e causais
Giancarlo Guizzardi, pesquisador de IA
Essa limitação está relacionada a um dos problemas mais conhecidos dos atuais sistemas de IA: as chamadas “alucinações”, quando a ferramenta apresenta informações incorretas ou inventadas com aparência de resposta correta.
É nesse ponto que as ontologias podem ganhar uma nova função. De acordo com Guizzardi, modelos de mundo podem funcionar como uma espécie de mecanismo de segurança para os sistemas de inteligência artificial.
Dentro desses mecanismos de segurança, eles podem operar com menos alucinação, de maneira mais confiável e de maneira mais explicável
Giancarlo Guizzardi, pesquisador de IA
A ideia é combinar o processamento estatístico característico dos sistemas atuais com modelos explícitos capazes de representar conceitos e relações do mundo. Essas estruturas poderiam ajudar, por exemplo, a verificar a qualidade e a veracidade dos dados utilizados pela IA.
Para o pesquisador, a questão central é fazer com que os sistemas tenham uma representação mais estruturada da realidade.
A única maneira de criar sistemas de IA que sejam confiáveis é se esses sistemas entenderem o mundo. Para entender o mundo, eles precisam ter um tipo de modelo de mundo. Para ter um modelo de mundo, a gente precisa de ontologia
Giancarlo Guizzardi, pesquisador de IA
Apesar de a discussão atual estar diretamente relacionada ao avanço da inteligência artificial, a pesquisa de Guizzardi começou muito antes da popularização dos sistemas generativos.
O trabalho teve origem em seu doutorado, iniciado em 2000 e concluído em 2005. Na época, a proposta de unir filosofia, ciência, cognição, linguística e computação era considerada uma abordagem pouco convencional.
O pesquisador afirma que não imaginava que o trabalho chegaria ao processo de padronização internacional que está em curso atualmente. “Esse resultado virou uma coisa de uma comunidade internacional. Então, tem gente no mundo inteiro e organizações no mundo inteiro adotando esse modelo”, contou.
Segundo Guizzardi, a atual etapa de padronização representa o resultado de um processo que já dura três décadas. Embora tenha começado com sua pesquisa, ele ressalta que a construção do modelo passou a envolver uma comunidade internacional.
Para o pesquisador, a evolução da inteligência artificial também deve mudar a relação entre seres humanos e tecnologia. Em vez de concentrar todos os esforços em sistemas capazes de fazer praticamente qualquer tarefa, ele defende o desenvolvimento de ferramentas mais específicas, voltadas para problemas determinados.
Tecnologia é uma coisa que nós humanos criamos para resolver problemas humanos. Então, ela tem que ser completamente alinhada aos nossos valores e objetivos humanos
Giancarlo Guizzardi, pesquisador de IA
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