Dos laboratórios clandestinos no exterior para o Espírito Santo, o mercado das drogas sintéticas ganha cada vez mais espaço. Ecstasy, LSD, anfetamina, fentanil, GHB, ketamina, entre outras, são comercializadas pela internet e consumidas por adolescentes e jovens, principalmente. O efeito desses entorpecentes é até dez vezes maior que o de outras drogas como maconha e cocaína, segundo a polícia.
As drogas sintéticas são criadas e fabricadas em laboratórios clandestinos com o uso de compostos químicos, como remédios e até mistura de outras drogas, para potencializar os efeitos.
Mas como esse tipo de droga chega até o Estado? Segundo a delegada Larissa Lacerda, adjunta do Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc), inicialmente as drogas sintéticas eram produzidas nos Estados Unidos e Europa e distribuídas aos outros países do mundo, mas atualmente já existem laboratórios espalhados em todo o mundo, inclusive no Brasil. Hoje, o principal polo mundial de produção fica na Holanda.
As negociações costumam ser feitas pela deep web. Segundo a polícia, antes da pandemia o transporte por avião era o mais utilizado pelos traficantes. Por conta da suspensão de viagens aéreas, esses criminosos buscaram outros meios para fazer a entrega das drogas. Grandes cargas de entorpecentes foram detectadas em navios nos portos brasileiros.
Quando traficantes do Brasil fazem a compra no exterior, ‘mulas’ — que na linguagem popular são as pessoas utilizadas pelos criminosos para trazerem a mercadoria para o país — são contratadas para transportar as drogas no corpo, em malas ou compartimentos escondidos. Geralmente são funcionários do navio, segundo a polícia.
Com os entorpecentes no Brasil, as drogas são entregues ao comprador que fará a distribuição pelos estados. Essa distribuição é feita de diversas formas: caminhões de cargas, carros, ônibus e até pelo correio.
No Espírito Santo, são jovens de classe média que comercializam essas drogas na intenção de ter lucros ou manter o próprio vício. Aqui, esses entorpecentes são vendidos na internet, nas redes sociais ou em festas, segundo a polícia. As drogas são compradas por outros jovens, inclusive menores de idade, de 15 anos em sua maioria.
As apreensões das drogas sintéticas, também chamadas de artificiais, aumentaram nos últimos anos à medida que os entorpecentes ficaram mais populares no mercado ilegal. Tanto o ecstasy quanto o LSD, que são as mais apreendidas no Estado segundo a Polícia Civil, têm preços entre R$ 50 a R$ 100.
Um dos motivos para o aumento do uso desse tipo de droga é a facilidade em conseguir os ingredientes para produção. Enquanto a fabricação dos entorpecentes tradicionais depende de plantas cultivadas, os componentes das drogas sintéticas podem ser obtidos pela internet.
A cocaína sintética, por exemplo, é produzida com a mistura MDPV (metilenodioxipirovalerona, substância contida em "sais de banho") e mefedrona, duas substâncias que produzem efeitos similares aos da cocaína produzida com coca: estimulação do sistema nervoso central e euforia, só que de forma mais intensa.
A delegada Larissa Lacerda, adjunta do Departamento Especializado de Narcóticos (Denarc), explica que, inicialmente, essas substâncias eram consumidas em festas de música eletrônica, mas atualmente sua utilização já se tornou mais popular.
"Elas são comercializada principalmente por meio da internet, redes sociais e em festas, sejam elas de música eletrônica ou outros gêneros."
APREENSÕES RECENTES
Somente em 2022, até agosto, foram apreendidas no Espírito Santo, pela Polícia Civil, mais de 7 mil drogas consideradas sintéticas, sendo 3 mil unidades de ecstasy e 4.100 unidades de LSD. Em 2021, foram 10.200 apreensões (4.700 unidades de Ecstasy e 5.500 unidades de LSD).
Em 2020, a polícia apreendeu 7.700 drogas sintéticas no Espírito Santo, sendo 5.500 unidades de ecstasy e 2.200 unidades de LSD.
A Polícia Federal apreendeu no Estado, em 2021, 56 comprimidos de ecstasy e 40,5 gramas de LSD.
No final de julho de 2022, a Polícia Federal desarticulou dois laboratórios clandestinos com grande capacidade de produção de drogas sintéticas em Curitiba (PR). Na ação foram apreendidos cerca de 14.800 comprimidos de ecstasy já prontos para consumo, além da droga conhecida como skunk - uma versão mais elaborada da maconha - e petrechos, como prensas e pinos de punção, usados na identificação dos comprimidos vendidos no mercado ilícito.
Foi apreendida também a quantidade de 800g de MDA, princípio ativo do ecstasy, quantidade suficiente para produzir ao menos 8 mil comprimidos da droga.
De acordo com a PF, a investigação é mais um marco no trabalho de inteligência que vem sendo realizado pela corporação, no controle e repressão aos desvios de produtos químicos para a produção de substâncias entorpecentes.
"As drogas sintéticas são produzidas a partir de substâncias químicas psicoativas que provocam alucinações por estimular ou deprimir o sistema nervoso central. Geralmente elas surgem a partir de substâncias em estudo por farmacêuticos e cientistas na descoberta de novos medicamentos."
PERFIL DE QUEM CONSOME
Mas qual o perfil do usuário e de quem comercializa drogas sintéticas? A delegada Larissa Lacerda explica que geralmente essas substâncias são comercializadas ilegalmente por jovens de classe média, na intenção de obter lucros ou até mesmo de manter o vício.
Quem as consome são jovens de classe média e alta, com idade a partir de 15 anos.
A diferença das drogas sintéticas para as demais é a composição de produtos químicos. Na maconha, por exemplo, os efeitos alucinógenos surgem naturalmente a partir da própria substância entorpecente.
Ainda que as drogas de origem natural, como a maconha e a cocaína, apresentam a maior prevalência de uso entre a população, o consumo de substâncias sintéticas tem chamado a atenção. Até o ano passado, mais de mil Novas Substâncias Psicoativas (NSP) foram identificadas e reportadas ao UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime) por 133 países.
RISCOS PARA A SAÚDE
Segundo o psiquiatra e presidente da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo (Apes), Valdir Ribeiro Campos, na última década ocorreu a expansão de um mercado dinâmico para drogas sintéticas e o uso não médico de produtos farmacêuticos e medicamentos prescritos.
Ele ainda explica que houve uma diversificação das substâncias disponíveis no mercado, onde centenas de Novas Substâncias Psicoativas (NSP) foram legalizadas para replicar os efeitos dessas substâncias ilegais como ecstasy, cocaína, cannabis e anfetamínicos.
"O resultado é que temos mais drogas e mais pessoas usando drogas e mais pessoas viciadas e sofrendo as consequências danosas dessas substâncias. Muito dos efeitos dessas novas drogas permanecem imprevisíveis e às vezes tem graves consequências adversas à saúde, incluindo overdoses não fatais, doenças infecciosas como HIV e hepatite C , morte prematura e suicídio", explicou Valdir.
O LSD, um dos mais apreendidos no Estado, é um alucinógeno. "Uma das substâncias mais potentes com ação psicotrópica que se conhece, podendo seus efeitos durarem até 12 horas. O uso dessa substância ocasiona distorções perceptivas de cores, formas e contornos, fusão de sentidos, perda da discriminação de tempo e espaço, alucinações visuais ou auditivas, delírios, exaltação, dilatação pupilar e convulsões", acrescentou.