Quantas vezes você precisou recomeçar sua vida? Sandra Azevedo está prestes a completar 60 anos, em setembro, e já perdeu as contas. Mas ela sabe exatamente quantas vezes já se maquiou: nenhuma. Foi em um abrigo voltado para pessoas em situação de rua, em Vitória, que ela foi maquiada pela primeira vez. “Eu estou linda?”, pergunta Sandra, já na expectativa.
Aos 59 anos, Sandra sente na pele o batom, o blush, o lápis de olho, a máscara de cílios. Cada camada é acolhida com animação. O sorriso não esconde a ansiedade de se ver. “Mas ela só quer olhar no espelho depois de terminar”, conta Adryenne Miguel, maquiadora responsável pela transformação.
E essa transformação não ficará apenas na memória de Sandra e de suas colegas. A Oficina Mulher de Valor, oferecida às mulheres acolhidas pelo Abrigo 1, tem como principal objetivo incentivar o protagonismo feminino, valorizando a beleza e, também, a força de ser mulher. Parte desse fortalecimento da autoestima vem com as fotos que Kamylla Prates tirou das moradoras durante a realização da oficina, como registro dessas mudanças.
No caso de Sandra, a mudança vem ainda com o desejo de seguir em frente. Ela volta a estar em situação de rua depois de décadas. A primeira vez nessa condição foi ainda criança, aos 7 anos. O marido a conheceu na rua. Foi com ele que seguiu adiante, teve filhos, morou “na roça e foi feliz”, como lembra.
Até que, 17 anos atrás, o marido faleceu, as crianças cresceram e se casaram, todos foram morar em Goiás, inclusive Sandra, que retornou há três meses ao Espírito Santo, sem ter onde ficar. “Vou me reorganizar, buscar ajuda para alugar um cantinho e poder cozinhar na praia. Eu amo cozinhar, e tem que ser na praia.”
Sandra compartilhou seu mais novo sonho com a colega Leidyane Moura da Cunha, 40 anos, enquanto as duas posavam para as lentes de A Gazeta. Emprego também está nos sonhos de Leidyane, assim como os estudos. “Concluir o ensino fundamental e continuar crescendo”, explica.
Ela e o marido, Geasi Souza de Freitas, de 36 anos, chegaram ao Abrigo 1 há dois meses. Ambos vivem em situação de rua e circulam pela Grande Vitória, passando por Vila Velha e Cariacica também. Mas, neste momento, precisam repensar o trajeto. “Ele está se recuperando de uma cirurgia, eu tenho alguns problemas de saúde. E é uma chance de voltar a estudar para conseguir um emprego”, diz Leidyane.
Essa oportunidade é um dos caminhos oferecidos pelo Abrigo 1. O espaço acolhe até 50 pessoas adultas em situação de rua, sendo o único espaço da Capital que também pode receber famílias. A distribuição dessas e das demais vagas oferecidas pela Prefeitura de Vitória para a população em situação de rua é gerida pela Central de Vagas do município.
Cada pessoa acolhida pode ficar até seis meses no local, prazo que pode ser prorrogado por mais seis meses, com avaliação da equipe técnica. “A autonomia é trabalhada para que cada um siga adiante, seja aproximando e voltando para família, seja seguindo o próprio rumo”, conta a secretária de Assistência Social de Vitória, Carla Mognato Scardua Shalders. E ela reforça: “A gente não pode desistir. A gente insiste e persiste, sempre”.
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