Mesmo seguindo a quarentena rigorosamente, saindo de casa somente quando necessário e com todo o cuidado, a pediatra Maria Francisca Moraes Silva Scopel, de 64 anos, foi contaminada pelo coronavírus (Covid-19). Em pouco tempo, a médica viu-se do outro lado: como paciente, em uma experiência que ela define como "quase morte". Após 12 dias internada e com comorbidades que agravavam o quadro, Francisca conseguiu "uma segunda chance".
A pediatra conta que, em 2018, teve uma insuficiência renal agravada pelo lúpus. Desde então, está afastada da profissão e faz hemodiálise. Com outras comorbidades, diabetes e hipertensão, ela passou a fazer a diálise em casa desde o início da pandemia, justamente para evitar exposição e contaminação pelo coronavírus.
"Eu permaneci em casa, fazendo quarentena. Meu marido era o único que saía para fazer compras. Estávamos cumprindo todos os cuidados, mantendo a higiene, sem receber visitas. As poucas vezes que saí foram para ir ao laboratório fazer exames. Não sei como fui contaminada. Mas quatro dias antes da internação, eu perdi completamente o apetite, tive mal-estar e desanimo. Dois dias depois, comecei a ter que fazer esforço para respirar e a falta de ar piorou muito depois", lembra
SEGUNDA CHANCE
Maria Francisca foi para o hospital às pressas e, ao chegar, recebeu oxigênio em cateter nasal. Ainda assim, continuava com dificuldades para respirar. Experiente naquele ambiente hospitalar cuidando de doentes, desta vez, a médica estava como paciente e sabia que sua situação era muito grave.
"Eu puxava e o ar não entrava. Parece que você vai morrer mesmo. Eu sabia que estava grave e sabia que todas as minhas comorbidades agravavam a situação. Nessa hora, talvez fosse melhor ser leiga. Fui para a UTI e fiquei intubada, sedada. Acordei três dias depois ainda com o tubo na traqueia, imobilizada. Foi quando pensei: não morri! Eu estou aqui! Senti como se tivesse recebido uma segunda chance. Nasci de novo"
LONGE DA FAMÍLIA
Após o diagnóstico da Covid-19, o marido e o filho, que mora com o casal, fizeram o teste para saber se também foram contaminados, mas o resultado deu negativo. A família precisou ficar afastada durante a recuperação da pediatra no hospital. Foi nesse momento que a equipe médica teve um papel essencial para Francisca.
"Fiquei dez dias na UTI e dois dias no quarto. Vi profissionais doando-se mais do que 100%, da equipe de limpeza à equipe médica. Nunca vou esquecer esse cuidado. Às vezes era tarde da noite e eles nem tinham comido de tanto trabalho. Toda vez que há troca de paciente, eles precisam trocar toda a roupa de cama e equipamentos. Ainda assim, nos tratam com carinho, nesse momento que não podemos receber carinho da família. A equipe de saúde lia cartas enviadas e ligava todos os dias para o meu marido para dar notícias", lembra.
VIDA TRANSFORMADA
Após os 12 dias internada - 10 na UTI e dois no quarto - a saída do hospital foi comemorada pela equipe médica, com cartazes e festa. A pediatra retornou para casa, em Vila Velha, e conta que nos primeiros dias ainda ficou um pouco abatida, mas que agora já sente-se totalmente recuperada. A experiência difícil e a recuperação que aconteceu como "um milagre", mudou completamente a vida dela.
"A gente sabe que tudo tem uma explicação. Recebi muitas orações, de gente que nem conheço, enquanto estava no hospital. E sem contar o esforço gigantesco de todos os médicos. Senti como se tivesse nascido de novo não somente porque eu venci a Covid-19, mas porque essa experiência de quase morte me transformou, mudou meus comportamentos. Passei a não me importar mais com muita coisa e a dar valor a cada minuto da vida "