Decisão da 3ª Vara Criminal da Serra declarou prescrita a punição para o assassinato de Claudia Rodrigues de Novaes, 22 anos, que ocorreu há 25 anos. Com isso, o ex-prefeito da Serra Adalto Martinelli, de 82 anos, fica livre do julgamento pelo homicídio, do qual foi denunciado pelo Ministério Público do Espírito Santo (MPES) como um dos mandantes e pela ocultação do corpo em 1997.
O fato acontece 23 dias antes da realização do julgamento, que havia sido marcado para o próximo dia 6 de março. De acordo com a decisão da juíza Daniella Pellegrino de Freitas Nemer, o acusado pelo crime tem mais de 70 anos, idade em que os prazos prescricionais são reduzidos pela metade, segundo o Código Penal.
O assassinato de Claudia Novaes é um dos muitos que ocorreram após a morte do também ex-prefeito da Serra José Maria Feu Rosa. Outro foi o do advogado Carlos Batista. Segundo Fabrício Freitas, filho do advogado, a mulher foi morta porque revelaria onde o corpo do seu pai havia sido escondido.
Ex-prefeito da Serra se livra de acusação de assassinato ocorrido há 25 anos
“Ela morreu porque revelaria a verdade dos fatos que eles queriam esconder, como onde foi enterrado o corpo do meu pai. A demora no julgamento desses casos leva à impunidade. É revoltante ver uma pessoa impune, sem pagar pelos crimes, o que só beneficia quem pratica crime, e quem sofre são as famílias das vítimas”, desabafa Fabrício.
Ele relata ainda que, por conta da idade, Martinelli também foi favorecido com a prescrição e redução de pena em outros crimes. “Houve prescrição também no crime do ex-prefeito José Maria Feu Rosa, livrando Martinelli da punição. Em relação ao crime do meu pai, ele também teve a pena reduzida”, relata.
Corpo desaparecido em 1997
No ano de 2000, o MPES denunciou o ex-prefeito da Serra Adalto Martinelli como o mandante do assassinato e da ocultação do corpo de Cláudia Rodrigues Novaes, desaparecida desde junho de 1997. Na ocasião, ela tinha 22 anos.
Cláudia era mulher de João Henrique Filho, o Joãozinho, que também foi acusado do desaparecimento do advogado Carlos Batista de Freitas. Junto com o ex-prefeito, o Ministério Público denunciou ainda o próprio Joãozinho e seus dois irmãos, Noel e Ademar Henrique Filho, como autores do crime da jovem. Joãozinho foi preso em 2019, no Acre, 27 anos após o crime do advogado, pelo qual foi condenado.
Segundo a denúncia, Cláudia teria sido retirada de sua casa no dia 20 de junho de 1997 por Ademar, Noel e Joãozinho. Eles a teriam levado para um local desconhecido, onde a mataram e ocultaram seu corpo. O motivo de Adalto Martinelli ter mandado matar Cláudia, segundo a denúncia, é porque ela sabia de detalhes sobre o assassinato do advogado Carlos Batista.
Pelo crime do advogado, o ex-prefeito foi condenado em 2009, mas teve a pena reduzida em um terço, em 2011, por ter completado 70 anos de idade. Também por causa da idade, houve prescrição favorável a Martinelli, em 2015, em relação ao crime do ex-prefeito assassinado, José Maria Feu Rosa.
Queima de arquivo
A série de assassinatos teve origem com a morte do ex-prefeito da Serra José Maria Feu Rosa e o motorista dele, Itagildo Coelho, em abril de 1990, em Itabela, na Bahia. Os dois foram executados, a tiros, na estrada a caminho da fazenda do político.
Na sequência, uma onda de assassinatos começou a acontecer. Em 21 de janeiro de 1991, no Norte do Estado, foram mortos Ademar Ferreira e Elpídio Coelho. A mulher de Elpídio, Carmem Sepulcro, também foi morta. Dois dias depois, o pistoleiro Valdecy Apelpheler foi carbonizado. Pelo menos outras quatro mortes de envolvidos foram registradas.
O MPES denunciou Adalto Martinelli e outros dois empresários. Um deles era Alberto Ceolin, que morreu em 2010, dias antes de ser julgado pela participação na morte do advogado Carlos Batista. O outro era Antonio Roldi (que morreu em 2001). Os dois foram acusados de encomendar a morte do então prefeito da cidade, José Maria Miguel Feu Rosa, e ainda a de Carlos Batista e de Claudia Novaes, como queima de arquivo.
Também segundo denúncia do Ministério Público, o advogado Carlos Batista de Freitas foi contratado pelos mandantes do duplo homicídio (Feu Rosa e seu motorista) para defendê-los e acabou sendo morto por conhecer detalhes do assassinato do ex-prefeito. Ele desapareceu em 25 de janeiro de 1992. Seu corpo nunca foi encontrado.
O policial civil Derneval Pereira, o Russo, também era acusado de executar o advogado. Ele morreu em 1993, um ano após o desaparecimento de Batista. Depois do crime, outras testemunhas, intermediários e executores, foram mortos
O que diz a defesa
A reportagem tentou contato com as duas advogadas do Adalto Martinelli listadas no processo, sem sucesso. Quando obtivemos um retorno, este texto será atualizado.