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História

Cemitério da época da gripe espanhola pode desaparecer na BR 101 no Sul do ES

Concessionária que administra a rodovia no Espírito Santo afirmou que obras estão previstas apenas para 2032 e que possíveis sítios arqueológicos são identificados antes das obras

Publicado em 23 de Julho de 2026 às 08:58

Redação de A Gazeta

Publicado em 

23 jul 2026 às 08:58
Cemitério com mais de 100 anos abriga túmulos de vítimas da gripe espanhola
Cemitério com mais de 100 anos abriga túmulos de vítimas da gripe espanhola Andrade Ribeiro

Um cemitério com mais de 100 anos e que, segundo moradores, abriga túmulos de vítimas da gripe espanhola, preocupa a comunidade e estudiosos de Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo.


Segundo eles, o Cemitério Santa Rosa, localizado às margens da BR 101, foi danificado após o início de intervenções na região e pode desaparecer com o avanço das obras de duplicação da rodovia. O espaço fica na altura do quilômetro 444 da BR 101 e é anterior à construção da estrada.


Ainda de acordo com a população, no cemitério estão sepulturas de famílias tradicionais da região, como Lopes, Rodrigues, Dalbom e Vieira, cujos parentes morreram durante a pandemia de gripe espanhola, entre 1918 e 1920.


O professor universitário e bacharel em Direito Leonardo Lopes contou que descobriu recentemente que também tem familiares enterrados no local.

Até então, eu não sabia que a família Lopes tinha alguém aqui nesse cemitério. Foi uma grata surpresa descobrir que tenho entes queridos enterrados aqui

Leonardo Lopes Professor universitário e bacharel em Direito

Uma das pandemias mais letais da história

A gripe espanhola é considerada uma das pandemias mais letais da história. Causada por uma cepa do vírus influenza, infectou cerca de um quarto da população mundial entre 1918 e 1920. No Brasil, mais de 35 mil pessoas morreram em decorrência da doença.


O historiador Renato Mofati explicou que o cemitério foi escolhido por estar distante dos núcleos urbanos da época. "Aqui ficou o centro para onde os corpos eram encaminhados para o sepultamento, distante das vilas e distritos da região. É onde estão sepultadas as pessoas da gripe espanhola", disse.

Moradores relatam danos

Segundo moradores, túmulos foram danificados e parte deles acabou coberta por vegetação e entulho. Leonardo Lopes afirmou que os danos teriam começado após intervenções realizadas no trecho da rodovia federal que passa pela região, em julho.


"É muito triste porque a gente vê que não está tendo respeito com os familiares e com as pessoas que foram enterradas aqui. Esse local é um marco histórico e, de uma hora para outra, a rodovia resolveu colocar restos das obras dentro do cemitério", disse o morador.


Apesar da preocupação, moradores e pesquisadores dizem que não são contrários à duplicação da BR-101. O pedido é para que o patrimônio histórico seja preservado. Para o historiador Renato Mofati, o local precisa receber reconhecimento oficial.


"As entidades deveriam olhar isso com mais cuidado, delimitar o cemitério e instalar uma placa para preservar esse espaço. A pandemia de 1918 faz parte da nossa história, e as próximas gerações precisam conhecer o que aconteceu", defendeu.

Cemitério com mais de 100 anos abriga túmulos de vítimas da gripe espanhola
Cemitério com mais de 100 anos abriga túmulos de vítimas da gripe espanhola Andrade Ribeiro

O que dizem prefeitura e concessionária

A Prefeitura de Mimoso do Sul informou que enviará equipes para realizar a limpeza do cemitério, mas não estabeleceu prazo para o serviço.


Já a Ecovias Capixaba afirmou que acompanha a situação do cemitério dentro do processo de licenciamento ambiental da BR 101. Segundo a concessionária, a duplicação do trecho entre os quilômetros 426 e 461, onde fica o Cemitério Santa Rosa, está prevista apenas para agosto de 2032 e, por isso, não há obras de duplicação em andamento nesse segmento.


A empresa informou ainda que qualquer intervenção dependerá de estudos técnicos, arqueológicos e das exigências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).


Acrescentou que, antes das obras, todos os sítios arqueológicos são identificados e, caso sejam encontrados vestígios de interesse histórico, o material é resgatado e encaminhado para museus do Espírito Santo.


Com informações dos repórteres Felipe Sena e Marina Venturoli, do g1ES e da TV Gazeta Sul

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