Um cemitério com mais de 100 anos e que, segundo moradores, abriga túmulos de vítimas da gripe espanhola, preocupa a comunidade e estudiosos de Mimoso do Sul, no Sul do Espírito Santo.
Segundo eles, o Cemitério Santa Rosa, localizado às margens da BR 101, foi danificado após o início de intervenções na região e pode desaparecer com o avanço das obras de duplicação da rodovia. O espaço fica na altura do quilômetro 444 da BR 101 e é anterior à construção da estrada.
Ainda de acordo com a população, no cemitério estão sepulturas de famílias tradicionais da região, como Lopes, Rodrigues, Dalbom e Vieira, cujos parentes morreram durante a pandemia de gripe espanhola, entre 1918 e 1920.
O professor universitário e bacharel em Direito Leonardo Lopes contou que descobriu recentemente que também tem familiares enterrados no local.
Até então, eu não sabia que a família Lopes tinha alguém aqui nesse cemitério. Foi uma grata surpresa descobrir que tenho entes queridos enterrados aqui
Leonardo Lopes Professor universitário e bacharel em Direito
Uma das pandemias mais letais da história
A gripe espanhola é considerada uma das pandemias mais letais da história. Causada por uma cepa do vírus influenza, infectou cerca de um quarto da população mundial entre 1918 e 1920. No Brasil, mais de 35 mil pessoas morreram em decorrência da doença.
O historiador Renato Mofati explicou que o cemitério foi escolhido por estar distante dos núcleos urbanos da época. "Aqui ficou o centro para onde os corpos eram encaminhados para o sepultamento, distante das vilas e distritos da região. É onde estão sepultadas as pessoas da gripe espanhola", disse.
Moradores relatam danos
Segundo moradores, túmulos foram danificados e parte deles acabou coberta por vegetação e entulho. Leonardo Lopes afirmou que os danos teriam começado após intervenções realizadas no trecho da rodovia federal que passa pela região, em julho.
"É muito triste porque a gente vê que não está tendo respeito com os familiares e com as pessoas que foram enterradas aqui. Esse local é um marco histórico e, de uma hora para outra, a rodovia resolveu colocar restos das obras dentro do cemitério", disse o morador.
Apesar da preocupação, moradores e pesquisadores dizem que não são contrários à duplicação da BR-101. O pedido é para que o patrimônio histórico seja preservado. Para o historiador Renato Mofati, o local precisa receber reconhecimento oficial.
"As entidades deveriam olhar isso com mais cuidado, delimitar o cemitério e instalar uma placa para preservar esse espaço. A pandemia de 1918 faz parte da nossa história, e as próximas gerações precisam conhecer o que aconteceu", defendeu.
O que dizem prefeitura e concessionária
A Prefeitura de Mimoso do Sul informou que enviará equipes para realizar a limpeza do cemitério, mas não estabeleceu prazo para o serviço.
Já a Ecovias Capixaba afirmou que acompanha a situação do cemitério dentro do processo de licenciamento ambiental da BR 101. Segundo a concessionária, a duplicação do trecho entre os quilômetros 426 e 461, onde fica o Cemitério Santa Rosa, está prevista apenas para agosto de 2032 e, por isso, não há obras de duplicação em andamento nesse segmento.
A empresa informou ainda que qualquer intervenção dependerá de estudos técnicos, arqueológicos e das exigências do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Acrescentou que, antes das obras, todos os sítios arqueológicos são identificados e, caso sejam encontrados vestígios de interesse histórico, o material é resgatado e encaminhado para museus do Espírito Santo.
Com informações dos repórteres Felipe Sena e Marina Venturoli, do g1ES e da TV Gazeta Sul