A música costuma embalar tarefas simples da rotina, como a arrumação da casa ou o trajeto para o trabalho. Para Max Bernardes, no entanto, cada nota musical ecoa como um troféu de superação. Aos 35 anos, o morador de Vila Velha, no Espírito Santo, deu início à realização de um antigo sonho: aprender a tocar violino, mesmo enfrentando a perda da visão e de parte da audição.
O interesse pelo instrumento de cordas começou na juventude, mas foi interrompido bruscamente aos 22 anos, quando Max contraiu meningite, inflamação que atinge as membranas que envolvem o cérebro. As sequelas da doença comprometeram a visão e parte da capacidade auditiva, colocando os planos em pausa.
A retomada foi construída passo a passo. Com o passar do tempo, vontades que pareciam adormecidas ganharam novo fôlego: ele voltou a estudar, concluiu o ensino médio e, há quatro meses, deu o primeiro passo na música e começou a tocar violino.
O sonho se tornou possível por meio da terapeuta ocupacional Stella Vianna, que o avisou sobre aulas gratuitas de violino na Estação Leopoldina, em Vila Velha. Ele se inscreveu e, em poucos meses de dedicação, já dominava os primeiros arranjos.
Eu consigo ouvir o som do violino e de instrumentos musicais. Sons, batidas e ruídos eu ouço normalmente; é somente a voz humana que fica distorcida
Max Bernardes Estudante
Entre as canções preferidas do repertório está "Beautiful", sucesso da cantora norte-americana Christina Aguilera que aborda coragem, força interior e autoaceitação.
“Fico muito contente sempre que as pessoas me dizem que, ao me verem, sentem alegria e vontade de superar desafios, de ampliar os horizontes. O que eu puder fazer para ajudar e inspirar, eu farei”, afirmou.
Ao longo dos últimos 13 anos de convivência com as deficiências, Max desenvolveu estratégias próprias de adaptação. Uma delas foi um método de comunicação batizado por ele de escrita tátil no corpo.
"Quando estava internado no hospital, no início da cegueira e da surdez, fiquei pensando em como iria me comunicar e falar com as pessoas. Trabalhei muito o raciocínio lógico. No começo, eu escrevia com o dedo no ar. Depois, ainda deitado no leito, passei a pedir que escrevessem na minha barriga ou no peito, com letras grandes. Quando tive alta e o quadro estabilizou, o método passou para o braço”, detalhou o estudante.
Nas aulas de violino, o professor Tácito Ribeiro encontrou um caminho conjunto para vencer as barreiras de comunicação e ensino. Sem encontrar metodologias pedagógicas tradicionais voltadas a alunos com deficiências visual e auditiva, o professor adaptou a técnica na prática.
“Eu ensino escrevendo algumas notas em forma de números no braço dele e repito com o violino, ajudando-o a posicionar dedo por dedo, arco por arco. É um processo bem lento, feito com muito cuidado e paciência. Foi preciso inventar um método, porque não encontrei literatura ou artigos sobre pedagogia do violino para pessoas cegas e surdas. Com paciência, vemos os resultados aparecerem”, explicou o professor.
Para Ribeiro, a dedicação e a evolução do aluno são surpreendentes. “A memória muscular dele é muito boa. Vejo uma evolução a cada semana, no ritmo dele. O mais bonito é que ele nos contagia e faz acreditar que tudo é possível”, destacou.
Para o estudante, as notas que antes pareciam distantes agora abrem caminho para novas aspirações. “Eu também escrevo poesias. Meu grande sonho agora é ver uma poesia minha transformada em música e tocada por mim mesmo no violino”, finalizou Max.
(Com informações de Álvaro Guaresqui, da TV Gazeta)