Desde o início do ano, moradores da Serra têm recebido em suas casas de forma intermitente uma água barrenta. Diante da situação, para muitos, o jeito tem sido comprar água mineral para beber e cozinhar. Já outros precisam encher baldes e latas com a água barrenta e esperar decantar (separar os resíduos da parte líquida) para poder usar.
A situação enfrentada por moradores da Serra levou um grupo de estudantes de Engenharia Sanitária e Ambiental do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) a fazer uma análise da qualidade da água distribuída pela Companhia Espírito-Santense de Saneamento (Cesan). No estudo, foi identificado um nível de turbidez seis vezes maior que o limite máximo estabelecido pelo Ministério da Saúde de 5 NTU (Unidade Nefelométrica de Turbidez).
“No procedimento é perceptível a quantidade de partículas em suspensão em excesso, conseguindo ver a olho nu com ajuda de uma luz de fundo. Portanto é coerente os resultados visto no equipamento”, diz o relatório. A Cesan alega que as chuvas do início do ano e aumento do consumo foram os motivos. (Confira explicação completa ao final do texto).
Segundo a estudante de Engenharia Sanitária e Ambiental do Ifes Liliane Coimbra, que mora em Jardim Carapina e enfrentava o mesmo problema, para chegar ao resultado foram analisadas três amostras: da água da torneira (água da rua), do filtro acoplado na torneira (água da rua) e outra amostra direto da caixa-d'água.
A amostra da caixa-d'água foi a que mais teve diferença na cor e a água da torneira estava mais clara que a da caixa, mas também extrapolou o limite. “Chegamos a conclusão que a água, mesmo passando pelo filtro, ainda tem muitos resíduos, a água da caixa-d'água decantou e há muita sujeira”, afirmou.
Além da análise da água, os estudantes fizeram um curta-metragem retratando a situação. De acordo com Liliane, o objetivo era mostrar a realidade das pessoas que estão enfrentando problemas com essa água. Muitos não conseguem cozinhar e lavar roupas. Outras famílias passaram por situações mais graves, com episódios de gastroenterite.
Água mineral após passar mal
Recebendo água turva desde o início de fevereiro, a moradora de Feu Rosa Erica Martins de Souza conta que passou a comprar água mineral para beber depois que todos da família passaram mal. Na sua casa, moram sete pessoas.
"Tem dia que ela está normal, mas depois do nada fica assim (barrenta). Nem estou mais bebendo água da torneira porque fiquei com medo depois que tive febre e tive diarreia e dor de barriga. Agora estamos comprando água. Mais um gasto"
Quem também relata enfrentar o problema é Scharlene Dipre, moradora de Serra Dourada 2, que disse receber água suja desde o período das chuvas do início do ano. Ela conta que depois de um tempo a situação se regularizou, mas segue comprando água mineral para consumo.
A presidente da Federação das Associações de Moradores da Serra, Mara Gomes, falou que muitos bairros têm enfrentado o problema desde o início do ano, principalmente a região de Castelândia, Planalto Serrano e Cascata.
A situação foi assunto, inclusive, de uma audiência pública na Assembleia Legislativa. “Pedimos explicação e providência a Cesan. Ficamos de fazer uma visita onde a situação é mais grave. Quando chove a situação piora”, relata Mara.
Cesan garante desconto
A Cesan justificou que o problema ocorreu devido ao período de chuvas no início do ano, quando inclusive uma barragem na região do Rio Santa Maria — que abastece a cidade — transbordou. Também foi registrado um aumento no consumo da água, o que fez o sistema produzir em sua capacidade máxima e contribuiu para a água chegar mais turva para o consumidor.
Segundo Carlos Dilem, gerente operacional da Cesan, o problema maior de turbidez foi de 5 a 8 de fevereiro e, diante do problema, a empresa iniciou o plano de contingência, iniciando um processo chamado de descarga, em que a turbidez é descartada para o meio ambiente pela drenagem.
Mesmo assim, de acordo com ele, ainda foi registrada turbidez em outros pontos da rede, como no no ramal, que liga a rede até o reservatório do imóvel. Ele orienta que quem ainda estiver com água turva deve fazer uma limpeza da caixa.
O gerente informou que o maior número de reclamações foi recebido em fevereiro, com 358 registros. Em janeiro foram 89 e nos primeiros dias de março, 29. O bairro onde mais houve queixas à Cesan foi Colina de Laranjeiras.
"Desde 8 de fevereiro, a água que está sendo tratada e enviada está atendendo a todos os padrões, tanto de turbidez como de nível de parasitas e coliformes fecais", explica.
Dilem informa que o morador que ainda receber água turva pode conseguir desconto na conta. Para isso, é preciso registrar a quantidade de água recebida fora dos padrões por uma foto ou vídeo, por exemplo, e evitar para a Cesan fazer a análise de ressarcimento, que tem ficado pronta em 30 dias. O morador pode entrar em contato pelo WhatsApp no número (27) 99722-9291.
Sobre o estudo realizado pelas estudantes do Ifes, o gerente operacional da Cesan diz que o tempo entre a coleta e análise pode interferir no resultado, já que as partículas decantam. E acrescentou que a turbidez da água analisada não quer dizer que é a mesma água que estava sendo distribuída no momento.