Publicado em 15 de março de 2026 às 15:14
A chegada do morango importado do Egito ao Brasil tem pressionado produtores do Espírito Santo e reduzido a renda de famílias que vivem da cultura da fruta. Agricultores afirmam que o produto estrangeiro chega ao país com preço mais baixo do que o custo de produção local, o que dificulta a competição no mercado. >
Em 2022, o Brasil comprou pouco mais de 4 mil toneladas do morango egípcio, enquantono ano passado esse número saltou para cerca de 42 mil toneladas.>
Para se ter uma ideia de como funciona a concorrência atualmente, o custo médio de produção da fruta na Região Serrana capixaba varia entre R$ 15 e R$ 16 por quilo. Enquanto isso, o produto africano entra no Brasil custando cerca de R$ 8.>
"Como é que o produtor vai sobreviver tendo custo de R$ 16 e vendendo morango a R$ 10 ou R$ 11, para tentar equilibrar a concorrência?”, questionou o secretário de Agropecuária de Santa Maria de Jetibá, Vanderlei Marquez.>
>
O produtor do município, Regilvan Barbosa, cultiva cerca de 14 mil pés de morango em estufa e sente o problema. Segundo ele, a situação se agravou porque, nos últimos 12 meses, os custos de produção locais ainda aumentaram em torno de 15%. "Quando entraram esses morangos importados, ficou mais difícil para a gente. A região de Santa Maria de Jetibá é grande produtora e a agricultura familiar sente muito", afirmou ao repórter Roger Santana, da TV Gazeta.>
O cenário desmotiva os produtores e impacta a economia capixaba. Vale lembrar que o Espírito Santo é o quarto maior produtor de morango do Brasil, com uma produção que gira em torno de 10.000 toneladas por ano.>
As áreas plantadas se concentram em toda a Região Serrana. Santa Maria de Jetibá compõe com os municípios de Domingos Martins, Venda Nova do Imigrante e Afonso Cláudio o chamado Polo de Morango capixaba.>
De acordo com a Secretaria de Estado da Agricultura do Espírito Santo, os produtores capixabas já reduziram os preços para tentar competir com o morango importado do Egito, vendido no Brasil principalmente na forma ultracongelada e usado pela indústria na fabricação de sucos e polpas.>
No entanto, a alíquota de importação é considerada baixa pelo governo estadual, em torno de 4%. Para tentar reduzir o impacto sobre os produtores locais, o governo capixaba enviou um ofício ao Ministério da Agricultura e Pecuária pedindo que a questão seja analisada pela Câmara de Comércio Exterior.>
A proposta é discutir a elevação da tarifa de importação para equilibrar as condições de competição no mercado.>
"O morango do Egito chega ao país por cerca de R$ 7 ou R$ 8 o quilo para a indústria. Esse valor fica abaixo do custo de produção da maioria das propriedades que cultivam morango no Espírito Santo e no Brasil. Então, o que queremos é equilíbrio. O morango de fora pode vir, mas precisa haver uma relação justa entre o custo de produção aqui e o custo da importação", afirmou o secretário estadual de Agricultura, Enio Bergoli.>
A concorrência também atinge cooperativas que comercializam morango congelado para a indústria. Em Santa Maria de Jetibá, uma delas precisou reduzir o valor pago aos agricultores para manter a competitividade.>
Segundo o diretor comercial Geovane Schulz, a fruta egípcia tem características que agradam à indústria. "O clima do Egito é muito frio à noite e quente de dia, isso que faz o morango ter a maior qualidade de sabor. Mas com a diferença de valores, para continuar sendo competitivo e conseguir dar saída pelo cooperado, tivemos que abaixar o preço na ponta e consequentemente para o cooperado", explicou.>
No passado, produtores chegaram a receber cerca de R$ 7,50 por quilo. Atualmente, o valor varia entre R$ 2,50 e R$ 5. O cenário começou a desestimular novos plantios. “Hoje, o produtor está bem desanimado. A gente vende também mudas e percebeu muitas desistências de plantio para 2026", afirmou Schulz.>
Pesquisadores do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) recomendam que agricultores busquem diversificar as lavouras com outras frutas para reduzir riscos econômicos. Entretanto, a transição não acontece rapidamente.>
"Aprender a trabalhar com outra cultura leva tempo, assim como implantar uma nova lavoura. Para quem depende apenas do morango, isso pode trazer problemas muito sérios para a renda da família", finaliza a pesquisadora Andrea Costa. >
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta