Em um cenário internacional marcado por conflitos, disputas comerciais e uma crescente fragmentação entre os grandes centros de poder, o Brasil deve evitar a escolha de um único parceiro estratégico e ampliar suas relações comerciais. Essa é a avaliação do cientista político José Luiz Niemeyer, que participou nesta quinta-feira (8) do Diálogos.ag, realizado durante a 2ª Feira Internacional do Café Conilon (FICC), em São Mateus, no Norte do Espírito Santo.
Para o especialista, a estratégia brasileira deve buscar uma posição de equilíbrio nas relações com Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia, Índia e países do Mercosul. A avaliação ganha relevância em um momento em que decisões tomadas pelas grandes potências têm impacto direto sobre cadeias produtivas e mercados consumidores.
“O Brasil deve manter uma equidistância na agenda de política externa. Os Estados Unidos são muito importantes. Inclusive, não são tão importantes para produtos agrícolas. São muito mais importantes para produtos semi-industrializados”, afirma Niemeyer.
Durante o bate-papo mediado pelo colunista de A Gazeta Abdo Filho, o professor disse que uma eventual escolha de Estados Unidos ou China como aliado preferencial poderia limitar a capacidade brasileira de negociar com outros mercados.
“Se o próximo governo eleito começar a querer buscar Estados Unidos ou China como aliados preferenciais num mundo fragmentado, competitivo e com tendência ao conflito, o Brasil estará cometendo um erro de política externa”, disse.
Durante o painel, Niemeyer também destacou o papel do agronegócio brasileiro na estratégia internacional do país. Para ele, produtos como o café podem funcionar não apenas como mercadorias de exportação, mas também como instrumentos de aproximação comercial e de abertura de novos mercados.
Para o especialista, o avanço tecnológico da cafeicultura brasileira e a criação de novos produtos e padrões de consumo ampliam as possibilidades de inserção internacional. Com isso, o potencial do café também está relacionado à capacidade de gerar negócios e movimentar economias locais.
“Quando um produto como o café abre oportunidade de negócio para a região e para a cidade de São Mateus, não é só sobre café. É sobre oportunidade de negócio. É também sobre a maneira como se organiza a economia”, afirmou.
Para alcançar novos consumidores no exterior, no entanto, o produtor individual encontra limitações. Niemeyer defendeu a atuação conjunta de cooperativas, associações, entidades empresariais e governos na abertura de novos mercados.
“É muito difícil um produtor que tenha 1 milhão de pés de café ir e negociar. Ele tem que negociar a partir dessas associações de classe, das cooperativas, de feiras como essa, que têm um papel importante para buscar novos clientes”, disse.
O especialista também defendeu uma articulação entre produtores e autoridades locais e estaduais para ampliar a presença do café brasileiro no exterior.
Na avaliação dele, a diversificação comercial é especialmente importante em um período de maior competição entre as potências econômicas.
“Não se deve considerar que se tem, em um cenário como esse, exclusividade de aliança. Não pode ter um país só, uma aliança exclusiva”, afirmou.
A discussão sobre a abertura de novos mercados levou também ao papel da infraestrutura logística capixaba. Para Niemeyer, os portos do Espírito Santo não são importantes apenas para a economia estadual, mas podem contribuir para o comércio exterior de outras regiões brasileiras.
“O Espírito Santo é um sistema de portos estratégico para o Brasil todo. Produtos de São Paulo, de Minas... O Estado pode ajudar a baratear a logística brasileira, que é fundamental para o Brasil continuar e expandir o comércio exterior brasileiro”, observou.
Na avaliação do professor, o Brasil ainda tem espaço para ampliar sua participação no comércio internacional diante de sua capacidade produtiva.
“Sem portos como esse sistema do Espírito Santo, o Brasil não vai conseguir colocar os seus produtos onde deve conseguir. O Brasil ainda é, do ponto de vista do comércio exterior, fraco. Pela capacidade de produção interna, tinha que exportar muito mais”, destacou.