Pouco antes do início da sessão desta segunda-feira (2) na Assembleia, às 15 horas, o ex-deputado Giulianno dos Anjos, filho de Enivaldo dos Anjos (PSD), alertou, na entrada do plenário: “Temos que vestir as roupas de bombeiro, porque o plenário daqui a pouco vai pegar fogo”. O filho conhece o pai que tem. Qual um Nero incendiário, o ex-líder do governo Casagrande, derrubado do cargo por decisão do governador no último sábado, ateou fogo no plenário, usando a tribuna para atirar bolas de fogo sobre os adversários ali mesmo e no primeiro escalão do governo. Mas não de imediato. Escrito e dirigido pelo próprio Enivaldo, o enredo que acabou como filme de guerra começou, para estupefação geral, como comédia nonsense.
Antes de mais nada, Enivaldo provou nesta segunda, como nunca antes, o seu total domínio de cena (no sentido literal, teatral mesmo) e o seu talento como showman. Em uma sessão extremamente aguardada, em que a tensão era palpável no ar do plenário e em que todas as expectativas se voltavam para a reação de Enivaldo, o ex-líder do governo desarmou a todos, fazendo no início justamente o contrário do que todos esperavam que fizesse: em vez de chegar ao plenário com cara de poucos amigos e soltando fumaça pelas ventas, Enivaldo optou pelo humor rasgado, quase circense, protagonizando uma entrada em cena que há de ser lembrada por anos, com uma apresentação situada em algum ponto entre o cômico, o jocoso e o folclórico, inclusive visualmente.
A fantasia de Enivaldo incluiu gravata e camisa vermelhas (segundo ele, por causa da campanha contra a Aids), chapéu de palha e botas de agricultores (em solidariedade aos cafeicultores capixabas) e, ainda menos verossímil: um saquinho de dentro do qual tirou um carrinho de autorama que ficou a andar em círculos, em moto-perpétuo, sobre a Mesa Diretora, à qual se sentou e ficou o tempo todo (segundo ele, um mecanismo contra o estresse).
Afinal, que raios era aquilo? Um número de circo? Um personagem de “A Casa é Nossa”? O fato é que, nos muitos minutos passados até que o deputado enfim fosse à tribuna, ninguém conseguiu prestar atenção em mais nada. Nem era necessário, mas, com essa aparição, Enivaldo aprofundou o efeito desejado de monopolizar as atenções. Além disso, durante esses instantes, o líder destituído do cargo quebrou completamente a tensão que pairava até o momento de sua chegada, transmitindo a (ilusória) mensagem de que não estaria nem aí, dando risada para a derrota sofrida.
Puro engano. Enivaldo não deixa de ser Enivaldo porque se vestiu como um clown. Quando todo o plenário já estava desarmado e ele enfim ocupou a tribuna para o seu aguardado discurso pós-queda, aquela aparente leveza subitamente evaporou. E o que começou como um número de stand-up político logo deu lugar ao verdadeiro número preparado por Enivaldo: o início da sua revanche contra os que o derrubaram de forma humilhante, ferindo-lhe o ego e os brios.
Irado por ter sido destituído do cargo de líder do governo, Enivaldo cuspiu fogo em secretários de Estado (especificamente a de Comunicação, Flávia Mignoni, e o da Casa Civil, Davi Diniz), em deputados governistas (principalmente Fabrício Gandini, do Cidadania), no seu substituto na função (Freitas, do PSB) e no partido Cidadania, comandado por Gandini e pelo prefeito Luciano Rezende no Estado. Deu ao governo inúmeros indícios de que pode guinar para a oposição num estalar de dedos. Mas, exercitando uma de suas maiores marcas (a ambiguidade), garantiu que cumprirá a sua promessa de apoiar Casagrande até o fim do governo.
Casagrande e sua equipe devem estar atentos e com as barbas de molho. Mesmo que não entre formal e declaradamente na oposição, um Enivaldo com o orgulho ferido pode dar mais trabalho para o Palácio Anchieta na Assembleia nos próximos tempos do que deputados que nunca fizeram parte da base governista. Até porque, ao lado de Erick Musso e de Marcelo Santos (PDT), Enivaldo compõe o triunvirato que efetivamente comanda a Assembleia desde 2017, com a chegada do primeiro à presidência.
CHAME COMO QUISER: QUE CAIU, CAIU
Enivaldo está particularmente irado com a versão de interlocutores de Casagrande de que ele foi “destituído” da liderança, versão que ele não aceita de jeito nenhum. Substituído… destituído… trocado… preterido… A palavra é questão de semântica. Mas pedir para sair do cargo é que Enivaldo dos Anjos não pediu. Como fera ferida, a veterana raposa política ficou ofendida porque o governo desmentiu a sua versão, divulgada no último sábado, de que ele deixou a liderança do governo por “motivos pessoais”.
CASAGRANDE E A PALAVRA PROIBIDA
Para passar isso a limpo, perguntamos diretamente a Casagrande nesta segunda, após o show de Enivaldo na Assembleia: afinal, ele destituiu-o ou não da liderança do governo? Possivelmente para não irritar ainda mais seu ex-líder neste momento delicado, Casagrande preferiu não frisar o óbvio e tangenciou a palavra “destituído”. “Eu escolhi o Freitas para ser líder. Agradeço muito a contribuição do Enivaldo, mas escolhi o Freitas para ser líder”, limitou-se a dizer. Repeti a pergunta. Ele repetiu a resposta, fugindo novamente da incômoda palavra.
O "VAPO" DE ERICK MUSSO
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Cena Política: a conversão de um tricolor
Com a leveza de quem acaba de descarregar o peso de quatro anos na presidência do Tribunal de Contas do Estado (TCES), o conselheiro Sergio Aboudib se permitiu brincar algumas vezes em seu discurso de despedida nesta segunda-feira, quando passou o bastão para o colega Rodrigo Chamoun. Conhecido como torcedor fanático do Fluminense, fez até uma confissão pública, ao enaltecer o netinho. “Ele me deu a alegria de me transformar em flamenguista. Isso é que é foco em resultado”, disse Aboudib, em referência aos recentes títulos do Flamengo, enquanto o tricolor carioca passa por maus momentos.