Depois de 20 anos, o Porto de Vitória vai voltar a fazer operações utilizando a ferrovia Vitória a Minas para o transporte de contêineres. A novidade faz parte de um teste que será realizado com uma empresa de Betim, em Minas Gerais. O nome do cliente é mantido em sigilo por questões contratuais.
A previsão é que a operação aconteça até o final do primeiro trimestre deste ano. Segundo o diretor de Planejamento e Desenvolvimento da Codesa, Bruno Fardin, será uma carga metálica - embora o produto exato não tenha sido divulgado - que vai ser importada pelo TVV (Terminal Vila Velha - operado pela Log-In), hoje o único terminal a realizar atividades com contêineres no Espírito Santo.
Assim que o produto chegar ao Estado, ele será escoado por meio de 55 vagões pela Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), que chega até a retroárea do Porto de Capuaba, tendo Betim como seu destino final. Se o teste for bem-sucedido, a previsão é que essa mesma carga passe a ser importada pelo TVV semanalmente e seja enviada para Minas por duas composições de 55 vagões.
Fardin pondera que existem alguns desafios logísticos a serem superados no transporte-teste da carga, mas que se operação funcionar bem e for produtiva, há ganhos para diferentes atores desse processo. Tanto a Codesa, quanto as empresas que estão importando e/ou exportando pelo Espírito Santo podem se beneficiar, como a própria economia capixaba.
"Você tem mais geração de tributos e aquece a economia como um todo. Agentes marítimos, operadores portuários e trabalhadores avulsos podem ser mais requisitados, gerando empregos.
Para o importador, o custo do frete ferroviário é muito menor do que o rodoviário e, embora o importador seja o responsável por pagar o frete, a partir do momento que a Log-In oferece para ele essa opção, ela se também se torna mais competitiva no mercado"
Ele explica que essa operação é um dos resultados do trabalho que vem sendo feito pela Codesa para retomar a conexão do porto com o ramal ferroviário que, segundo o executivo, foi subutilizado nos últimos anos. Atualmente a EFVM é usada apenas para trazer ferro-gusa de Minas Gerais para ser exportado pelo cais de Paul. Outra carga que, em alguns momentos, é importada e utiliza a ferrovia é a de trilhos ferroviários, mas de modo pontual e em pequena quantidade.
A movimentação de mercadorias entre o Estado e Minas Gerais existe, mas ela acontece principalmente por via rodoviária. "Temos cargas principalmente de granéis sólidos, como fertilizantes, que depois de chegarem ao porto vão atender Minas Gerais e alguns locais do Centro-Oeste. Mas elas sobem de caminhão e não de ferrovia, assim como acontece com contêineres", observou o diretor da Codesa.
A Vitória-Minas até opera cargas de terceiros, como fertilizantes e soja, mas esse transporte tem o terminal de Tubarão como destino. A ideia da Codesa é criar condições para que o ramal ferroviário passe a ter uma maior integração com o portuário e o Porto de Vitória ofereça mais opções para empresas do segmento de comércio exterior, se tornando mais competitivo.
Bruno Fardin explica que o Plano Mestre do Porto de Vitória, que é uma espécie de plano diretor, prevê que o porto tem a capacidade para movimentar 12 milhões de toneladas por ano. "Nós fizemos, em 2019, 7 milhões. Embora esse tenha sido o melhor resultado dos últimos 5 anos, vemos que há capacidade de aumentar a movimentação de cargas em 70%. Colocar a ferrovia como mais uma opção para clientes vai nos ajudar a atingir a capacidade máxima e contribuir para tornar o porto a escolha logística para o Estado de Minas Gerais, que hoje escoa boa parte dos seus produtos por terminais do Rio e de São Paulo", afirma.
REFLEXOS DE BRUMADINHO
O trabalho de intensificação de uso da Vitória a Minas acontece em um momento que pode ser interessante inclusive para a VLI, que opera cargas de terceiros pelo ramal ferroviário, uma vez que a movimentação por esse modal caiu no ano passado. A ociosidade é explicada pelos impactos da tragédia do rompimento da barragem de Brumadinho, que aconteceu em janeiro 2019, mas deixou reflexos ao longo de todo o ano, impactando a produção de minério e o seu escoamento.