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Não faz sentido...

Emenda Musso na Assembleia briga com a razão e a lógica

Imagine se os moradores e um condomínio elegessem hoje o síndico que assumirá o cargo em fevereiro de 2021? Até lá, muitos terão se mudado. Outros terão chegado. Não faz mais sentido deixar quem vai viver lá naquele ano escolher?

Publicado em 30 de Novembro de 2019 às 12:00

Públicado em 

30 nov 2019 às 12:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Na presidência da Assembleia, Erick Musso já chegou a 2021 Crédito: Amarildo
Esta semana foi marcada e por muito tempo será lembrada na política capixaba pela manobra empreendida pelo presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso, no cargo desde 2017, para nele manter-se até, pelo menos, fevereiro de 2023. O movimento foi feito em dois tempos, com mínimo intervalo entre ambos.
O primeiro se deu na segunda-feira (25), com a rápida aprovação, na Assembleia, da PEC proposta pelo próprio Erick que alterou a data da eleição da Mesa Diretora da Casa. O texto da Constituição vigente até então estabelecia, claramente: as eleições para o comando da Assembleia deveriam ser realizadas sempre no dia 1º de fevereiro, a cada biênio, tanto no 1º como no 3º ano de cada legislatura. Com a nova redação dada pela Emenda Musso, a eleição para o 2º biênio passou a poder ser convocada a qualquer tempo, em data a ser determinada pelo próprio presidente.
Na quarta, Erick chutou para o gol aberto a bola ajeitada por ele mesmo: para perplexidade quase geral, convocou ali mesmo, a exatos 400 dias para o início de 2021, a eleição na qual, pelo voto dos atuais colegas, assegurou, para si, a permanência no comando da Casa pelo biênio 2021-2023.
Agora fica muito claro como não é bom para a democracia e para a própria sociedade essa nova regra que deixou a data da eleição completamente fluida, volátil, definida segundo a conveniência do presidente sentado na cadeira. Na Constituição Estadual de 1989, tudo foi incluído pelo legislador com um propósito. Nada foi posto ali por acaso. A data da eleição da Mesa é um desses “detalhes” que deveriam ser inalteráveis.
No entanto, contando a emenda de Musso, esse mesmo “detalhe” já foi alterado sete vezes, sempre de modo casuístico, ao sabor dos interesses pontuais do grupo no poder na Assembleia no momento.
A partir da Emenda Musso, todos os deputados e toda a sociedade capixaba ficarão reféns da cabeça do presidente da vez, que realizará a eleição quando for melhor para si mesmo, como o dono da bola ou o juiz com o poder de mudar as regras do jogo no meio da partida para favorecer seu próprio time.
“Ah”, alegam aliados, “mas o Erick é um bom presidente”. E se não for um bom presidente? E se o presidente não for bom? “Mas o Erick está fazendo uma boa gestão”, argumentam aliados. Não seria mais correto deixar que isso fosse avaliado ao fim da gestão?
Do jeito que ficou o texto constitucional com tal emenda, nada impede, por exemplo, que o presidente empossado em 1º de fevereiro de 2023 (início da próxima legislatura) convoque, já no dia seguinte, a eleição para o biênio 2025-2027 (o 2º da próxima legislatura). Ora, o novo texto permite isso. Mas qual será o sentido?
Do mesmo modo, qual é o sentido de o síndico de um condomínio ser escolhido, para o biênio iniciado em 2021, pelos atuais moradores do prédio (muitos dos quais podem mudar-se até lá), e não por todos os moradores que de fato estarão vivendo no condomínio naquele biênio e que de fato estarão sob a administração daquele síndico?
Da mesma forma, imaginem se as eleições municipais fossem antecipadas. E se o próximo prefeito, que governará a cidade a partir de 2021, fosse eleito hoje, pelos atuais munícipes? Não soa mais correto e não faz muito mais sentido deixar que o prefeito seja eleito pelos munícipes que, muito provavelmente, estarão mesmo vivendo na cidade a partir de 2021 e que, portanto, serão mesmo governados por aquele prefeito eleito?
Por fim, imaginem vocês se, de repente, o Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara Federal, tirasse da cartola uma emenda como essa e propusesse antecipar sua própria reeleição em mais de um ano. O que a opinião pública brasileira pensaria a respeito? Uma manobra como essa, em Brasília, seria vista com naturalidade? E por que aqui deveria ser?

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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