Tarifaço, inflação e investimento. As novas tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, que entraram em vigor no dia 22 de julho, provocaram oscilações no mercado financeiro e levantaram dúvidas de pequenos investidores sobre essas pautas.
Afinal, é hora de mexer na poupança, retirar dinheiro da renda fixa ou correr para comprar dólar? Para responder a essas e outras perguntas, A Gazeta ouviu especialistas em economia e investimentos. A opinião dos analistas converge para uma orientação: o ideal é evitar decisões impulsivas e acompanhar a evolução do cenário econômico.
Nessa conjuntura, os setores automotivo, agrícola e industrial estão entre os mais impactados pela medida. Segundo o doutor em Economia Gercione Dionizio, a medida do governo Donald Trump prevê exceções para alguns segmentos, como carne bovina, café, aeronaves e celulose.
“Para os setores não contemplados pelas isenções, a tendência é de redução da competitividade dos produtos brasileiros no mercado norte-americano, podendo resultar em queda das exportações, especialmente naqueles com maior dependência do mercado dos Estados Unidos”, afirma.
O aumento das tensões comerciais não afeta diretamente o rendimento da poupança. Segundo o sócio da Valor Investimentos Marcel Lima, isso significa que quem mantém recursos na caderneta não deve esperar mudanças imediatas causadas apenas pelo tarifaço anunciado pelos Estados Unidos.
“Os investimentos feitos para reserva de emergência são essencialmente pós-fixados (atrelados à Selic). Essa taxa não apresenta oscilação relevante de curto prazo”, considera.
Embora seja tímido o impacto sobre aplicações conservadoras, as tarifas podem influenciar a economia por outras vias. Segundo Marcel, o tarifaço aplicado pelos EUA tende a diminuir a entrada da moeda norte-americana no Brasil, o que pode pressionar o câmbio. Por consequência, um dólar mais caro encarece produtos importados e pode aumentar a inflação interna.
“Esse efeito chega ao investidor de duas formas: na volatilidade do câmbio e da bolsa no curto prazo e na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), que pode manter os juros elevados por mais tempo caso a incerteza persista. Juros mais altos por período prolongado tendem a beneficiar quem está posicionado em renda fixa pós-fixada”, comenta.
Gercione Dionizio esclarece que, para investidores conservadores, que aplicam em Tesouro Selic, CDBs de liquidez diária e outros produtos de baixo risco, a recomendação é acompanhar os próximos passos da política econômica e evitar mudanças precipitadas na estratégia.
Os títulos indexados à inflação, como a mensurada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), são investimentos que rendem a inflação do período mais uma taxa fixa. Isso significa que o dinheiro não perde o poder de compra, mesmo que os preços subam mais do que o esperado.
Marcel Lima pontua que, por esse motivo, esses títulos costumam ser mais procurados em momentos de incerteza econômica, quando há dúvidas sobre o comportamento da inflação nos próximos anos.
“São mais adequados para quem tem horizonte longo, de cinco anos ou mais, com objetivos como aposentadoria. Não são recomendados para quem pode precisar do recurso antes do vencimento, uma vez que o preço do título oscila no período intermediário”, afirma.
Embora o pacote tarifário tenha previsto exceções para commodities agropecuárias, minerais e energéticas, além de produtos florestais e de alguns bens industrializados, outros segmentos podem perder competitividade no mercado americano.
A tendência, segundo Gercione, é de redução das exportações para setores mais dependentes dos Estados Unidos, com possível queda nas vendas e na receita das empresas. No médio prazo, a saída deve ser buscar novos mercados, mas isso exige investimentos e adaptação a exigências técnicas e regulatórias.
Segundo Marcel Lima, entre os ativos mais sensíveis a esse cenário estão o câmbio, ações de setores exportadores diretamente tarifados, a bolsa e títulos prefixados ou IPCA+ de prazo mais longo. "Já os produtos pós-fixados atrelados à Selic ou ao CDI, como Tesouro Selic, CDBs DI e fundos DI, além da poupança, tendem a não sentir efeitos relevantes no curto prazo”, aponta o sócio da Valor Investimentos.
A alta da moeda americana costuma despertar o interesse de investidores, mas especialistas recomendam cautela. Para Marcel Lima, é importante diferenciar uma estratégia de diversificação internacional de uma decisão tomada por medo.
Segundo ele, manter parte do patrimônio em ativos no exterior pode fazer sentido como planejamento de longo prazo. Em contrapartida, comprar dólar apenas por causa do tarifaço pode significar reagir a uma informação que já foi, em grande parte, absorvida pelo mercado.
“Se a diversificação já fazia parte do planejamento, o caminho é seguir de forma gradual. Se é impulso do momento, merece reflexão adicional antes de qualquer movimento”, afirma.
Marcel Lima alerta que um dos erros mais frequentes cometidos por pequenos investidores é agir por impulso diante das notícias negativas e vender ativos, transformando uma perda momentânea em um prejuízo real.
Ele alerta que a principal recomendação é manter a estratégia de investimentos já definida. O especialista destaca que os aportes recorrentes ajudam o investidor a atravessar períodos de volatilidade, permitindo aproveitar oscilações do mercado ao longo do tempo.
Por isso, eventuais ajustes na carteira devem ocorrer de forma planejada, dentro do processo de rebalanceamento dos investimentos, e não como reação imediata a notícias ou movimentos de curto prazo do mercado.