O discurso do ministro da Economia, Paulo Guedes, acerca da existência de uma possível festa de empregadas domésticas viajando para a Disney revela uma realidade impossível de ser negada, por mais que se tente ocultar. Esse governo fará todo o esforço para não permitir que os pobres se aproximem dos ricos em condições de igualdade, seja no trabalho, na escola ou na diversão.
É preciso mantê-los em seus lugares para que não comecem a reivindicar outros direitos. É preciso deixar claro, sem subterfúgios discursivos, que há um lugar onde devem permanecer os herdeiros da escravidão, qual seja a senzala.
No máximo, babás e empregadas domésticas poderão alimentar sonhos de visitar a Disney nas férias dos patrões quando esses precisarem de alguém que tome conta dos filhos pequenos enquanto eles se divertem livremente sem o peso do cuidado de sua prole.
Quedar-se-ão então agradecidas pela benesse concedida, oportunidade única de viajar de avião e conhecer os Estados Unidos. Por que não nos enganemos, com um salário em torno de R$ 1.200, quando devidamente formalizadas, ninguém consegue visitar a Disney a não ser que deixe de comer e se vestir.
O desprezo manifesto na fala do ministro não é simplesmente um preconceito com as empregas doméstica. Não é um simples desrespeito às quase 7 milhões de pessoas que trabalham nessa condição. Também não é um equivoco discursivo, uma fala analisada fora de seu contexto pelos críticos do governo.
Ela é a representação clara, objetiva, límpida e inequívoca da existência de uma tríade que nos constitui enquanto nação. Vivemos uma luta de classes, de gênero e de raça, que, apesar de negada por aqueles à quem não interessa evidenciá-la, começa a ser expressa despudoradamente, na fala de todos que se uniram em torno de um projeto político de reversão das conquistas de direitos obtidos na luta de trabalhadores, das mulheres, dos negros e de tantos outros que alimentaram a esperança de algum dia viverem em um país republicano e democrático, de livres e iguais.
A fala do ministro é demonstrativa do incômodo que as classes sociais mais privilegiadas sentem ao se encontrar na universidade com os filhos das empregadas domésticas, dos trabalhadores da construção civil e de tantos outros que ali nunca puderam estar até tempos recentes.
Ela representa a repulsa de ter que conviver com mulheres pobres viajando de avião. O desprezo pelos corpos negros, que começam a passear pelos mesmos ambientes antes reservados aos ricos, agora com seus cabelos não mais alisados na tentativa de se parecerem com os brancos, mas com suas belezas pujantes, coloridas, irreverentes muitas vezes, que os fazem sofrer a perda de privilégios que julgavam lhes ser por direito.
A fala do ministro, não é isolada. Ela representa um projeto político vitorioso por meio de estratégias eleitorais de cooptação de massas, para implantar uma nação de despossuídos lutando tão intensamente para sobreviver que não lhes sobre tempo, seja para pensar, seja para se mobilizar e lutar por seus direitos.
O que se discute aqui não é meramente uma questão de preconceitos de uma pessoa isolada, no caso, o ministro. É uma questão de conquista e de perda de direitos. Os parcos direitos até então conquistados nas últimas décadas e que estão sendo violentamente retirados, representam um projeto político vitorioso de manter em seus “lugares” periféricos, mulheres, pobres e negros.
A esperança, de alguns, de que as perdas sofridas nesse governo possam lhes ser recuperadas, com um salvador da pátria que lhes conceda o retorno aos direitos tão rapidamente perdidos, é irreal e ingênua.
Direitos não são dados por nenhum governo ou líder carismático. Direitos são conquistas originadas de lutas por reconhecimento. Lutas daqueles que sofrem com a desigualdade e com as injustiças perpetradas e que são capazes de transformar indignação em movimento, potência transformadora de realidade.