Em dezembro do ano passado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) previu que o resultado da balança comercial do Brasil em 2020 será o pior dos últimos anos. O saldo ficará em US$ 38 bilhões - uma decepção maior do que os US$ 46 bilhões em 2019, o valor mais baixo desde 2015, quando registrou US$ 19,5 bilhões.
Os números se fundamentam em duas justificativas: desaceleração da economia global e a incompetência brasileira para ganhar novos mercados. Temos problemas crônicos de baixa produtividade e elevadíssimo custo Brasil. O Espírito Santo sentiu o cenário externo apático. Suas exportações somaram US$ 8,78 bilhões em 2019, menos 0,69% em relação ao ano anterior.
Mas a realidade pode ser pior. O quadro desenhado pela CNI já não vale. Foi atropelado por fatos impactantes. A situação é atípica, e lança nuvens de incerteza na economia mundial. A produção e o consumo globais caminham rumo ao imprevisível. O Espírito Santo experimenta esse amargor. As exportações pelo litoral capixaba no primeiro mês de 2020 não passaram de US$ 473,8 milhões. Significa queda de 16,7% ante o mês anterior e de 44% na comparação com janeiro de 2019.
Acontecimentos negativos simultâneos estão degradando as perspectivas econômicas para 2020. O Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia, foi o primeiro forte acontecimento político e econômico de 2020. É um complicador para a conjuntura internacional. Tende a limitar o crescimento econômico em vários países europeus.
No momento, o coronavírus é o maior agente de desassossego (na economia e na saúde pública). Até a última sexta-feira de fevereiro, empresas listadas na bolsa de valores brasileira haviam perdido R$ 400 bilhões em valor de mercado, em apenas uma semana. O derretimento atingiu sobretudo a Petrobras (R$ 51 bilhões) e Vale (R$ 29 bilhões), ambas de fundamental importância para as exportações e a economia do Espírito Santo e do Brasil. O novo vírus está alastrado em quase 60 países, correndo a economia, inevitavelmente.
A desaceleração das maiores economias mundiais é fato altamente preocupante. Trata-se de notícia muito ruim para o comércio exterior brasileiro e do Espírito Santo. Nos Estados Unidos, líder econômico mundial (e maior destino das produtos que saem da costa capixaba), o PIB cresceu 2,3% em 2019. É o resultado mais baixo em três anos, e há sinalizações de tendência a decréscimo ainda maior. Não foi isso que Trump prometeu em campanha. Ao contrário.
A China, segunda maior economia do planeta, também está murchando. Números oficiais mostram crescimento de 6,1% em 2019, ante 2018 - o pior desempenho em 29 anos. Cálculos indicam que o avanço do coronavírus deve "comer" de 1 a 2 pontos percentuais do crescimento do PIB em 2020.
O vírus também está derrubando o Japão, terceira maior economia do mundo. A decadência é alarmante. Com a produção industrial e o turismo fortemente afetados, a atividade econômica do país encolheu a uma taxa anualizada de 6,3% entre outubro e dezembro de 2019, e há risco de outra grande contração no primeiro trimestre de 2020. O Japão está à beira da recessão.
Já a Alemanha, quarta maior economia do planeta e a mais importante da Europa, por um triz conseguiu evitar a recessão em 2019. O PIB ficou em 0,6%. E as primeiras pesquisas referentes a 2020 sugerem enfraquecimento produtivo impondo ritmo muito lento. Na Alemanha, a produção de veículos é a menor em 25 anos.
Na América do Sul, o Brasil não pode, no momento, contar com a Argentina para crescerem juntos. O nosso vizinho está em recessão há quase dois anos e sofre com uma taxa de pobreza que chega a quase 40%. Enfim, o mundo deve se preparar para dificuldades maiores do que as esperadas.