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Segurança

Como a criminologia enxerga o sádico e perturbado personagem Coringa

A violência não pode ser explicada por um fator isolado. Partindo da premissa de que a arte imita a vida, o filme "Coringa" permite refletir sobre alguns elementos que podem influenciar uma pessoa a cometer delitos

Publicado em 12 de Fevereiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

12 fev 2020 às 04:00
Pablo Lira

Colunista

Pablo Lira

Joaquin Phoenix como Coringa Crédito: Warner/Divulgação
Amigo(a) leitor(a), caso ainda não assistiu ao filme "Coringa", do diretor Todd Phillips, e não gosta de spoiler pare a leitura do artigo neste ponto.
Além de ser um sucesso de bilheteria, o filme desse lendário vilão vem acumulando vários prêmios e sendo bem recebido pela crítica especializada. Nosso amigo colunista de cultura de A Gazeta, Rafael Braz, na pré-estreia da película no cinema, em outubro de 2019, já previa a indicação ao Oscar.
Antes mesmo da cerimônia de entrega do Oscar, com 11 menções, o filme conseguiu se consagrar como a produção cinematográfica baseada em quadrinhos com mais indicações da história da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood.
Para os pesquisadores e profissionais da Segurança Pública, justiça criminal e áreas correlatas é praticamente impossível assistir ao filme e não estabelecer associações com as teorias da criminologia que permitem analisar a etiologia do crime, ou seja, as causas que podem levar um indivíduo a cometer delitos e/ou praticar atos de violência.
A história começa contando a trajetória de Arthur Fleck, nome do personagem antes de se tornar o sádico vilão, uma pessoa que sofre com transtornos psicológicos e leva uma vida dura. Ele mora em um pequeno apartamento na decadente Gotham City, onde cuida da mãe que também sofre com problemas psicológicos e apresenta a saúde bem debilitada.
Durante a infância, Arthur não recebeu a atenção necessária. Era espancado pelo namorado de sua mãe. Na criminologia, a teoria do aprendizado social demonstra que o comportamento favorável ou desfavorável ao crime seria apreendido a partir das interações pessoais. Nesse sentido, a família ocupa um papel central. Quando Fleck tem as memórias de infância desbloqueadas descobre que sofria agressões terríveis.
Ao mesmo tempo, a teoria do autocontrole foca na análise dos desdobramentos dos indivíduos não desenvolverem os mecanismos psicológicos de autocontrole na fase entre os 2 e 3 anos até a fase pré-adolescente, bem como na supervisão dos pais ou responsáveis, que eventualmente falham em não impor limites às crianças. Devido à infância sofrida e conturbada, dificilmente Fleck desenvolveu mecanismos de autocontrole suficientes. Ainda assim, na vida adulta, antes de assumir a identidade do Coringa, Arthur Fleck tenta ter autocontrole sob impulsos violentos em algumas situações de estresse.
Mesmo com todas as adversidades, o protagonista do filme busca levar um cotidiano normal trabalhando como palhaço e sonha fazer sucesso como comediante. Longe de suas aspirações, na dura realidade ele sofre várias formas de violência. Por conta de sua condição física e comportamento, um sujeito introspectivo, tímido, extremamente magro, descabelado e com um jeito desajeitado de caminhar, Fleck é discriminado e rotulado em vários momentos.
No trabalho, é assediado moralmente pelo seu patrão e colegas de emprego. Também é, mais de uma vez, covardemente agredido. Diariamente, vê suas expectativas serem esfaceladas. Nessa vertente, a teoria criminológica da anomia pode ser empregada para compreender, complementarmente, o desenvolvimento ou fortalecimento do comportamento desviante do Coringa. Essa teoria parte da ideia que o crime é um dos componentes da vida em sociedade. A motivação para o cometimento de delitos decorreria da impossibilidade de determinados indivíduos atingir metas desejadas.
Arthur Fleck percebe que a sociedade deu as costas para ele quando é informado pela assistente social que os serviços de consultas e fornecimento de medicamentos foram suspensos devido à austeridade do corte das verbas públicas. A combinação das violências sofridas e as frustrações no campo pessoal, social e econômico deixam o protagonista do filme desolado.
A teoria econômica da escolha racional assinala que a decisão de cometer ou não o crime resultaria de um processo de maximização de utilidade esperada, em que o indivíduo confrontaria, de um lado, os potenciais ganhos resultantes da ação criminosa, o valor da punição e as probabilidades de detenção e aprisionamento associadas. Na cena final, o Coringa chega a afirmar: “eu não tenho mais nada a perder, nada mais me machuca”.
Na criminologia, a teoria da desorganização social parte de uma abordagem sistêmica no nível coletivo para assinalar que o crime seria produto de associações formais e informais, de relações de amizade, parentesco e outras que, de alguma forma, contribuiriam para o processo de socialização e aculturação do indivíduo. A Gotham City da década de 1980 é marcada por uma mistura de ruas sujas, crise moral, corrupção, crimes, violências e severa desigualdade social. Foi nesse ambiente que o Coringa eclodiu.
As teorias da criminologia se complementam para tentar compreender o crime e violência no nível individual e coletivo. Nenhuma dessas teorias dá conta de abarcar toda a complexidade do fenômeno criminal. A violência não pode ser explicada por um fator isolado, é produto da combinação de uma série de condicionantes. O filme Coringa permite refletir sobre alguns elementos que podem influenciar uma pessoa a cometer delitos.
Não se deve transformar o vilão em herói. Partindo da premissa de que a arte imita a vida, é interessante refletir sobre as condições psicológicas, sociais, econômicas e ambientais que contribuíram para transformar Arthur Fleck no Coringa. As perspectivas da criminologia possibilitam ensaiar algumas linhas explicativas.

Pablo Lira

Pos-Doutor em Geografia, mestre em Arquitetura e Urbanismo (Ufes), pesquisador do IJSN e professor da Universidade Vila Velha (UVV). Escreve as quartas

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