PT: Jackeline pode ser candidata a prefeita da Serra ou de Cariacica
Eleições 2020
PT: Jackeline pode ser candidata a prefeita da Serra ou de Cariacica
Com o ingresso de João Coser na disputa em Vitória, a petista tende a ser deslocada para a disputa pelo Executivo de outra vitrine política. Colatina também é uma opção
João Coser virou um problema íntimo para Jackeline RochaCrédito: Amarildo
O anúncio do ex-prefeito João Coser de que quer ser o candidato do partido à Prefeitura de Vitória gera uma série de desdobramentos sobre os planos eleitorais do PT em outros municípios do Estado e, acima de tudo, sobre outros personagens da sigla. A mais diretamente afetada é a presidente estadual do PT, Jackeline Rocha – aliada de Coser –, até então apontada por outros petistas como a principal pré-candidata do partido a prefeita da Capital.
Com o ingresso de Coser na disputa, o favoritismo para obter a legenda em Vitória tranfere-se todo para ele, e Jackeline passa a ser vista internamente como uma carta coringa, podendo ser deslocada para a disputa pela prefeitura de outra vitrine política. Entre as alternativas que se abrem, ela pode concorrer ao Executivo de Colatina, da Serra ou até de Cariacica – com maiores chances para as duas últimas cidades.
Uma primeira informação essencial é que, no momento, o domicílio eleitoral de Jackeline está em Colatina, sua cidade-natal, conforme a coluna apurou junto ao TRE-ES. Hoje, portanto, ela só poderia ser candidata na cidade-polo do Noroeste do Estado. Se quiser participar da eleição em algum outro município, tem até do dia 4 de abril para transferir o domicílio. É bem provável que o faça.
Isso porque Jackeline está muito focada, hoje, na Grande Vitória. Colatina pode ser uma opção (um “prêmio de consolação”), mas ficou pequena demais para ela, considerando potencial e aspirações, principalmente depois que representou o PT na eleição ao governo estadual em 2018 – chegando em 3º lugar.
Para ser mais exato, o que Jackeline deseja mesmo ainda é representar o PT na eleição ao Executivo da Capital – embora até agora, segundo relatos internos, não tenha feito um movimento firme no sentido de se viabilizar. Mas o grupo de Coser acredita que ele obterá a legenda naturalmente, sem luta interna nem decisão por meio de prévia ou convenção – o que ele não disputará de jeito nenhum.
Os aliados do ex-prefeito acreditam que, a partir do momento em que Coser entra para valer no jogo, manifestando claramente a intenção de disputar em Vitória, Jackeline pode até levar um tempo para assimilar a mudança de planos, mas acabará se deixando convencer de que apostar em Coser é o melhor para o partido e que não faz sentido algum brigar com ele internamente pela vaga – até porque, além de muito jovem, ela tem um leque de opções já nesse pleito municipal.
Um petista arrisca uma comparação: “Guardadas as devidas proporções, o Haddad foi o candidato do PT à Presidência em 2018 porque o Lula nâo pôde. Mas imagine se o Lula pudesse e quisesse ser o candidato. Alguém cogitaria uma disputa do Haddad com ele? É isso”.
Por esse raciocínio, Coser possuiria a preferência nessa “fila”, não por tecnicamente ser idoso (faz 64 anos na próxima sexta-feira, enquanto Jackeline tem 36 anos), mas por sua biografia no partido (foi deputado estadual constituinte, por exemplo, em 1989), por já ter sido prefeito de Vitória por dois mandatos e, principalmente, por ainda ser considerado a principal referência e liderança política do PT no Espírito Santo.
CHEGA PRA LÁ SUAVE
Pelo convencimento, assim, Jackeline deve recuar e ceder o lugar a Coser. É o que avalia o grupo do ex-prefeito. E o próprio Coser deverá trabalhar pessoalmente para assegurar à aliada – sua sucessora na presidência estadual do PT – um “espaço privilegiado” nessas eleições municipais. Isso significa lançá-la candidata à Prefeitura da Serra ou à de Cariacica, se ela topar.
Na Serra, Jackeline obteve seu melhor percentual de votos na eleição de 2018, levando em conta as maiores cidades capixabas: 11,1%. Em todo o Estado, ela teve 7,4% dos votos válidos. A avaliação de alguns é que o eleitor serrano está cansado da alternância, que já dura 24 anos, entre Audifax (Rede) e Vidigal (PDT) no poder, o que abre campo para o lançamento de um nome jovem e novo (como Jackeline) que possa quebrar essa polarização. Por outro lado, há quem avalie que essa polarização ainda deve predominar na Serra este ano, prejudicando a competitividade de eventual candidatura de Jackeline na cidade.
Vidigal ainda não o confirmou, mas ninguém tem dúvidas de que será candidato de novo. Em fim de segundo mandato consecutivo, Audifax não pode concorrer, mas lançará um candidato próprio (ainda indefinido, mas fala-se muito, hoje, em seu secretário de Serviços, Igor Elson).
EM CARIACICA, TERRA DE NINGUÉM
Já em Cariacica, a situação é diferente. Por um lado, eventual candidatura de Jackeline na cidade poderia gerar certo estranhamento – afinal, ela seria uma forasteira. Por outro lado, se tem uma cidade grande no Espírito Santo cuja eleição hoje é um campo virgem e aberto, essa cidade é Cariacica, sobretudo depois do anúncio feito pelo deputado federal Helder Salomão, no fim de janeiro, de que não disputará de novo a prefeitura da cidade, governada por ele de 2005 a 2012, em dois mandatos concomitantes aos de Coser em Vitória.
Se Helder quisesse ser candidato, não haveria discussão: a legenda do PT na cidade seria toda dele, e até adversários o veriam com certo favoritismo na largada. Como centro gravitacional, o deputado atrairia para seu palanque muitos dos atuais pré-candidatos, “limpando” bastante o cenário. Sem Helder no páreo, contudo, deu-se o contrário: agora, em Cariacica, todo mundo quer ser candidato, inclusive dentro do PT. Só no partido de Helder, já há cinco aspirantes ao posto. Nesse cenário tão aberto, por que Jackeline não pode ser a candidata petista na cidade? É uma opção também aventada pelo grupo de Coser.
A última hipótese é Jackeline não ser candidata a nada, concentrando-se em organizar as chapas do PT Estado afora – tarefa dela, afinal, como presidente estadual da sigla. De todo modo, é preciso antes de tudo saber o que Jackeline há de querer. Após a “reentrada” de Coser no atlas das eleições em Vitória, na última quinta-feira (5), a petista mergulhou nas profundezas do Mar Vermelho. Tentamos falar com ela desde então. Sem sucesso.
Antes de lançar o nome para voltar a concorrer à Prefeitura de Vitória, João Coser havia dito que não disputaria mais mandatos eletivos. Mudou de ideia. Deve ter sido por causa da reforma da Previdência, aprovada no Congresso Nacional no fim de 2019. Até então, a idade mínima para a aposentadoria de homens no Brasil era 60 anos. Com a reforma, passou a ser 65 anos. João Coser completa 64 na próxima sexta-feira. Aliás, sexta-feira 13.
Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo