O ex-prefeito de Vitória João Coser defende que o PT participe de uma ampla frente unificada de partidos de esquerda, já no 1º turno, na eleição presidencial de 2022. Mas reconhece que isso é muito difícil (para não dizer impossível), pois a direção nacional do PT, como ele mesmo afirma, já decidiu lançar candidato próprio à Presidência da República novamente no ano que vem (como fez em todas as eleições gerais desde 1989, a primeira após a redemocratização do país).
“O partido já tem essa decisão tomada. O partido terá candidato à Presidência da República. A nossa estratégia, como sempre, é fortalecer a candidatura presidencial, porque quem muda de verdade a vida do povo é o Executivo federal. Não significa que os outros [cargos] não sejam importantes. Mas por isso, para nós, a eleição presidencial é o centro do debate”, afirma Coser, ex-presidente estadual do PT e um dos principais líderes da legenda no Espírito Santo. Segundo ele, o partido está entre dois nomes: “O Lula não está se colocando muito como candidato não. Mas será ele ou o Haddad. Um dos dois.”
Entretanto, Coser admite ter simpatia pessoal por uma ideia alternativa. Como se sabe, partidos como PSB, PDT, Rede, PV e Cidadania estudam a formação e o lançamento de uma frente ampla de centro-esquerda, reunindo essas e outras siglas, para concorrer à próxima eleição presidencial com uma candidatura unificada. O raciocínio é simples: unificar para governar. Em 2018, notoriamente, Bolsonaro beneficiou-se da divisão das forças de esquerda em várias candidaturas (Haddad, Ciro, Marina, Boulos; PSB retirado na última hora do palanque de Ciro por um acordo com Lula). No 2º turno, não deu para juntar os cacos. A ideia seria não repetir esse erro em 2022.
Pessoalmente, apesar de não ter grande esperança, Coser opina que, para derrotar Bolsonaro, os dirigentes do PT deveriam se abrir à discussão sobre participação nessa frente, já no 1º turno (o que poderia significar abdicar da candidatura própria).
“É uma opinião pessoal. Eu particularmente defendo um movimento desse tipo. Esse debate não está muito forte dentro do PT. Pelo instrumento da lei atual, o 1º turno é para que os partidos apresentem o os seus programas de governo e façam os seus grandes acordos, os chapões, no 2º turno. Mas eu sou simpático à ideia do chapão.”
Por outro lado, o ex-prefeito de Vitória admite a dificuldade de o PT caminhar nesse sentido (fundamentalmente, por causa da força e da influência de Lula):
“Em algum momento nós vamos ter que evoluir, os partidos terão que fazer concessões, buscar um nome que agrega. Mas eu não sei se o PT consegue fazer isso hoje, eu tenho dúvida, pela força da legenda e pela força do próprio presidente Lula. No caso do PT, é real o tal do ‘amor ou ódio’. Tem o ódio, construído, imaginário ou real. Por outro lado, tem o amor incondicional. Tem pessoas que deliram com a presidência dele, com o governo dele, com a história dele. Então ele é uma pessoa amada por milhões e, naturalmente, foi construído um ódio de milhões também.”
Coser – e aqui já é opinião do colunista – demonstra um realismo que falta à maioria dos dirigentes petistas, principalmente aos dirigentes nacionais. Em 2018, Bolsonaro beneficiou-se da divisão da esquerda e de uma série de outros fatores. Mas, acima de tudo, beneficiou-se do antipetismo e desse “ódio ao PT”, bem pontuado por Coser, que o atual presidente soube capitalizar como ninguém no processo eleitoral.
É na polarização passional e radical com o PT que Bolsonaro cresce. Sem a rejeição e o medo ao PT para explorar, ele perde seu maior trunfo no processo. O que a maior parte dos petistas não entende é que, paradoxalmente, na obsessão de voltar à Presidência, eles tendem a ajudar Bolsonaro a nela permanecer.
No subtexto das declarações de Coser, o ex-prefeito indica que Lula deve ser o candidato do PT (se puder). Mas o lulismo e a lulodependência podem impedir que o partido enxergue o quadro maior. Nas últimas eleições municipais, em novembro passado, o PT colheu resultados terríveis nas urnas no país inteiro. Estrategicamente, para derrotar Bolsonaro, o partido talvez devesse dar um passo atrás e uma vez em sua história abrir mão do protagonismo. Mas isso exige uma humildade que falta a muitos figurões do PT, a começar pelo próprio Lula.
GOVERNO DO ES
Sobre a próxima eleição estadual, Coser afirma que o PT ainda não decidiu se terá candidato próprio ao governo do Espírito Santo. “O partido não discutiu isso ainda. Esse processo se dá normalmente a partir de março, após o carnaval. Mas nós já temos uma definição: o nosso foco será a eleição nacional.”
PALANQUE
De acordo com o ex-prefeito, a candidatura própria à Presidência não necessariamente significa que o PT terá candidatura ao governo do Estado para fortalecer o candidato à Presidência no Espírito Santo.
“Não, isso não é um critério. Prioritariamente, não. No Espírito Santo, o PT pode ter uma candidatura somente ao Senado, pode não ter candidatura majoritária e trabalhar uma chapa de candidatos a deputado federal e estadual e fazer o palanque para o candidato a presidente da República, apoiando um candidato a governador ou não apoiando. Mas o PT sempre estará pronto para ter a sua candidatura [ao governo estadual], se achar bom ou necessário. Se for necessário, teremos nomes”, diz Coser, sem citá-los.
ENTRAR NO GOVERNO?
Sobre possível participação do PT no governo Casagrande – simpático à candidatura dele à Prefeitura de Vitória em 2020 –, Coser diz que isso não está em pauta. “Não tem esse debate interno até hoje, como se diz, nem de convidado nem de ‘oferecido’. Vamos continuar trabalhando. Nós torcemos pelo governo dele. A Iriny apoia no que pode. Mas não tem necessidade de entrarmos no governo não.” Ele refere-se à deputada estadual Iriny Lopes, a única do PT, aliada de Casagrande na Assembleia.
CONVERSA COM O GOVERNADOR
O governador pretende conversar em breve com Coser sobre a conjuntura político-eleitoral do Espírito Santo, visando a 2022. O bate-papo ainda não está marcado, mas um emissário já fez chegar ao ex-prefeito que Casagrande quer falar com ele sobre o tema eleição 2022.
O CHAPÃO, POR CASAGRANDE
A formação de uma frente ampla contra Bolsonaro é justamente o que defende Casagrande para a próxima eleição presidencial, mas numa concepção ainda mais abrangente, incluindo forças de centro-direita, como o PSDB e DEM.
Já na eleição ao governo do Espírito Santo, a ideia na cúpula do Palácio Anchieta é reproduzir esse chapão. Possivelmente, sem o PT.