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Análise

As 7 mentiras capitais de Jair Bolsonaro – parte 3

Na parte final da série iniciada neste domingo (21), apresentamos as três últimas fantasias de campanha que não sobreviveram ao terrível choque de realidade do que é, de fato, o governo do capitão

Publicado em 22 de Março de 2021 às 02:00

Públicado em 

22 mar 2021 às 02:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas

Em 2018, Bolsonaro contou e criou muitas mentiras sobre o que seria o seu governo
Em 2018, Bolsonaro contou e criou muitas mentiras sobre o que seria o seu governo Crédito: Amarildo
Para se eleger em 2018, Jair Bolsonaro contou e se beneficiou de algumas mentiras. Foram promessas e expectativas criadas por ele a respeito de sua Presidência, fundamentais para sua vitória eleitoral, mas que não sobreviveram ao tempo e ao terrível choque de realidade do que é o seu governo de verdade. No último domingo (21), começamos a listar e explicar as sete mentiras capitais de Bolsonaro. As duas primeiras (“seria um liberal” e “representaria a ordem”) foram expostas aqui. A terceira e a quarta (“faria um governo sem viés ideológico” e “seria muito diferente do PT”) podem ser conferidas aqui.
Nesta segunda-feira (22), encerrando esta série em três partes, apresentamos as três últimas fantasias que acompanharam a chegada de Bolsonaro à Presidência da República: a de que ele combateria a corrupção; a de que ele traria mais segurança ao país; e a de que ele não seria político, não faria a “velha política” e não negociaria com partidos e com o Congresso.

5) ELE COMBATERIA A CORRUPÇÃO

Fabrício Queiroz. Investigação de rachadinhas. Nomeações de parentes entre si. Fortes indícios de funcionários fantasmas. Transações financeiras suspeitas envolvendo a mulher, os filhos e assessores de gabinete. Interferência declarada e descarada do presidente da República na Polícia Federal, na Abin e em outros órgãos de investigação, para blindar a si mesmo e aos seus, como se todo esse aparato estatal estivesse a serviço não do Estado brasileiro, mas dele mesmo e de sua família (e é exatamente isso que ele crê).
O 01, o 02, o 03… E agora até o 04! Parece até piada pronta, mas é verdade: até o quase imberbe Renan Bolsonaro agora é investigado, por tráfico de influência.
Se alguém quer saber sobre o real compromisso de Bolsonaro com o combate à corrupção, basta perguntar ao Sergio Moro por que ele saiu do governo.
É emblemático que o presidente tenha escolhido o atual procurador-geral da República, Augusto Aras, fora da lista tríplice formada pelo Ministério Público Federal, quebrando uma tradição que fortalecia a independência da instituição de persecução penal que não está (ou ao menos deve estar) subordinada a nenhum governo.
Enquanto isso, o Ministério da Justiça prepara dossiês sobre jornalistas, professores e policiais que não apoiam o presidente… E a Polícia Federal abre inquéritos contra personalidades que o criticam.
O governo Bolsonaro não é o governo em que acabou a corrupção no Brasil. É o governo em que acabou a Lava Jato. E não porque não houvesse mais serviço a ser feito.

6) ELE TRARIA MAIS SEGURANÇA AO POVO BRASILEIRO

Criado no governo Michel Temer, o Ministério da Segurança Pública segue existindo, integrado ao da Justiça. Mas, sério: alguém sabe dizer qual é a política nacional de segurança pública, estruturada de maneira abrangente pelo atual governo, em parceria com os governos estaduais, com o objetivo de mitigar os índices de criminalidade no país inteiro? Pois é: isso não existe. Durante a gestão de Sergio Moro, lançou-se um programa-vitrine de nome impactante, “Em frente Brasil”, mas de alcance limitadíssimo (restrito a cinco municípios no país inteiro, sendo Cariacica um deles) e de resultados concretos discutíveis.
A “política de segurança” de Bolsonaro não significa mais segurança, e sim, basicamente, mais armas de fogo. Suas medidas nessa área tão sensível resumem-se a uma série de decretos e projetos de lei com o intuito de afrouxar sempre mais as regras para a posse e o porte de armas, facilitando o acesso da população civil a cada vez mais armas e mais munição. Nisso Bolsonaro não mentiu: está cumprindo uma promessa de campanha.
Faltou dizer que mais armas de fogo adquiridas legalmente por civis significa, no médio prazo, mais armas nas mãos de criminosos e, no longo prazo, ainda mais crimes e mortes violentas. Afrouxar a legislação nessa matéria não tem nada a ver com política de segurança pública. Na verdade, vai na contramão de qualquer política séria de redução de homicídios.
Quase nenhum estudioso do assunto e/ou secretário estadual de Segurança Pública sustenta que o aumento da aquisição de armas reduz homicídios e outros crimes, mas exatamente o contrário. Não por menos, os secretários, que lidam com o problema no dia a dia em seus Estados, estão arrancando os cabelos com essa política armamentista de Bolsonaro.
7) ELE NÃO SERIA POLÍTICO, NÃO FARIA A "VELHA POLÍTICA" E NÃO NEGOCIARIA COM PARTIDOS E COM O CONGRESSO
Essa sempre foi a mais difícil de entender e foi outra que, igualmente, sucumbiu ao confronto com o governo real. Bolsonaro foi deputado por sete mandatos seguidos, totalizando quase 30 anos em Brasília, produzindo quase nada além de polêmicas estéreis e valendo-se dos expedientes mais tradicionais da política, entre os quais pegar a verba do auxílio-moradia paga com nosso dinheiro, por anos, para “comer gente” (segundo ele mesmo), e empregar conhecidos em cargos ligados a seu gabinete – alguns deles suspeitos de serem funcionários fantasmas. Aí, durante a campanha, surgiu com discurso de que não faria o jogo da “velha política”.
“Meu partido é o Brasil” é só uma frase de efeito. Na prática, o partido dele em 2018 era o PSL, um dos quase 10 aos quais já esteve filiado, outro traço marcante de quase todo político profissional. Já na Presidência, saiu do PSL por uma disputa pelos recursos partidários com a direção nacional da sigla. Depois disso, ameaçou fundar a própria legenda, mas arquivou o plano, e já cogitou entrar em vários partidos. Até voltar para o PSL, vejam só, passou a ser uma opção.
No início do governo, demonizou a política e desdenhou de alianças com as bancadas partidárias. Cometeu o erro primário de achar que poderia governar sem base alguma no Congresso. Em 2020, apertado pela pandemia e pela multiplicação de pedidos de impeachment, passou a fazer abertamente o que jurou que não faria: negociar apoio dos partidos, inclusive os do Centrão, grupo que reúne os partidos considerados mais fisiológicos – aqueles sempre prontos a apoiar o governo da vez em troca de espaços de poder.
O namoro com o Centrão virou casamento na eleição à presidência da Câmara, com a vitória de Arthur Lira (PP), deputado cheio de denúncias no currículo, apoiado publicamente por Bolsonaro para a sucessão do desafeto Rodrigo Maia (DEM).
Em paralelo, Bolsonaro mantém, inarredável, a mais velha atitude que se pode esperar de todos os mais antigos representantes da “velha política”: está em campanha pela reeleição desde que subiu a rampa do Palácio do Planalto. Em cada gesto, em cada ato teatral jogando-se nos braços de apoiadores, o presidente segue à risca o manual do populista latino-americano. E não há nada mais antigo que isso no Brasil e em qualquer parte do mundo.

Vitor Vogas

Jornalista de A Gazeta desde 2008 e colunista de Política desde 2015. Publica diariamente informações e análises sobre os bastidores do poder no Espírito Santo

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