Nas últimas décadas a humanidade experimentou um boom científico na área da comunicação: a internet, as novas mídias digitais e tecnologias da informação – as mesmas que foram fundamentais para a vitória eleitoral de Jair Bolsonaro em 2018. Não é exagero dizer: de certo modo, a chegada de Bolsonaro ao Planalto é resultado direto da evolução da Ciência.
Tome-se a ferramenta preferida de comunicação do presidente e da sua barulhenta prole: o Twitter, essa maravilha da tecnologia digital, só é possível graças a séculos de evolução das pesquisas científicas mundo afora, passando pelo telégrafo, pelos primeiros telefones, pelos primeiros computadores, pela pré-História da internet, pelo início da telefonia digital. Da mesma forma, aplicativos de trocas instantâneas de mensagens, como o Whatsapp, usados em 2018 para compartilhamento em massa de conteúdos de campanha. Esse é só um exemplo do que a Ciência é capaz de produzir.
Mas Bolsonaro assumiu o poder disposto a renegar a Ciência e todo o acúmulo da civilização humana.
Em vez de reconhecer suas limitações e dar ouvidos a especialistas que são referências nas respectivas áreas de conhecimento, prefere ouvir os filhos, que por sua vez se inspiram em Olavo de Carvalho, um autoproclamado filósofo que só faz dizer tolices. Para ingênuos, pode parecer “revolucionário” nadar contra a maré, pensar diferentemente do establishment intelectual. Nesse caso, não é. Não são ideias modernas, inovadoras, disruptivas, mas mofadas e superadas há séculos. Terra plana? Vacina é ruim? Se é vanguarda, é a vanguarda do atraso.
Bolsonaro se elegeu falando que queria fazer o Brasil voltar a ser como há 50 anos. Em alguns pontos, parece querer retroceder mais. Baseia decisões de Estado em achismos, moralismos e em crenças religiosas. “Deus acima de todos”? Está lá na Constituição: respeito total a todas as religiões, mas o Estado foi separado da religião (lá no início da Modernidade). “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Mas o presidente prefere ignorar verdades científicas.
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Desde o início do governo, esnoba a academia. Vilaniza intelectuais, estudantes e universidades. Em vez de prestar reverência (ou continência) a pesquisadores, prefere desprezar quem passa a vida debruçado sobre livros e instrumentos de laboratório. Em vez de os valorizar, desprestigia institutos de pesquisa do seu próprio governo: IBGE, Inpe, Fiocruz, ICMBio...
Os números do desemprego vêm ruins no início do seu mandato, o que ele faz? Desacredita o IBGE e propõe que os índices de desocupação sejam colhidos nos bancos (?!?). Em agosto de 2019, os dados do Inpe mostram aumento alarmante do desmatamento na Amazônia, o que ele faz? Condena o Inpe, não o desflorestamento.
O Ministério da Família é puro fundamentalismo religioso. Para mitigar a gravidez na adolescência, em vez de conscientização e métodos contraceptivos, temos campanha pela virgindade. No Ministério contra o Meio Ambiente, em que pesem todas as evidências científicas, o ministro não acredita que a ação humana acelere o aquecimento global. À frente do Itamaraty, um olavista que acredita em Trump como um deus que salvará o Ocidente da ação perversa do “marxismo cultural” e do “globalismo” que destruirá a tradição judaico-cristã. Em área tão estratégica, seria bem-vindo mais pragmatismo e menos ideologia.
Da mesma forma o MEC, onde o ministro Weintraub, outro olavista de carteirinha, assumiu o cargo suspendendo bolsas de iniciação científica. Enquanto processos e programas do ministério mal caminham, o ministro empenha-se como o melhor aluno (não em ortografia) na guerrilha ideológica digital. Parece mais preocupado em “causar” e polemizar do que em pensar no que fazer para alunos brasileiros aprenderem mais e melhor, para combater a evasão escolar, para melhorar os currículos, para qualificar os professores e remunerá-los melhor. Enfim, os reais problemas da educação brasileira estão passando longe.
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Felizmente, no rateio da Esplanada, o Ministério da Saúde foi poupado dessa ala ideológica, anticientificista.
Quando o sapato aperta e a realidade se impõe às sombras projetadas nas paredes da caverna, o que pode nos salvar não é a inócua cruzada ideológica, não é o anticientificismo, não é o antiglobalismo, não é o terraplanismo, não são as bizarrices emanadas do “Bruxo da Virgínia” nem teorias excêntricas que refutam, por exemplo, a eficácia da vacinação em massa.
A única salvação possível está na Ciência e no diligente e silencioso trabalho de seus representantes, bem longe dos gabinetes do poder, não em busca de glória política, mas de descobertas e melhorias nas condições de vida da espécie humana. Todas as respostas e esperanças residem naquela mesma Ciência tão maltratada, repudiada e até desdenhada pelo nosso atual governo.
Contestar o valor da Ciência podia até fazer algum sentido 400 anos atrás, quando Galileu precisou renegar suas descobertas para escapar de virar cinzas na fogueira da Santa Inquisição. Continuar fazendo pouco dela, em pleno ano 2020 (e ainda mais no atual momento de pandemia do coronavírus), além de ser ridículo e anacrônico, pode cobrar um preço muito caro, não só político (para quem governa), mas humanitário (para o povo governado).
A História não costuma perdoar a ignorância.