Medir candidatos pelo barulho ou pela narrativa?
Estamos numa série de reflexões sobre as campanhas eleitorais, sobretudo neste tempo histórico que estamos vivendo. E alguns fatores que nos circundam nestes tempos são os barulhos, as carreatas, as buzinas, os gritos e assim vai. Nas cidades interioranas, isso é um fato: quanto mais carros tiver numa carreata, mais forte está ou é o candidato. E a narrativa, e o plano de governo? Este recebemos, até lemos, mas perdemos a confiança de que aquilo será cumprido.
Tenho tirado alguns minutos para acompanhar e ler os ecos das eleições norte-americanas. Diferentemente de nós, lá um candidato perde ou ganha força a depender da sua narrativa em debate, dos seus discursos e propósitos. Lá, há pessoas centenárias, sem o mínimo de obrigação, saindo para votar, correndo o risco da pandemia, mas vão exercer a sua cidadania. Vejam: a força de uma narrativa, a atenção às palavras de um candidato, o conflito de ideias de ambos são o que faz mover a política. Quando estaremos mais próximos dessa realidade?
Enquanto isso, seguimos avaliando barulhos, candidatos que gastam dinheiro em barulhos para conquistar olhares – e chamam isso de estratégia. O termômetro dessa estratégia é: fazer mais barulho do que o outro candidato, custear combustível para nossa carreata ter mais carros que o do outro, ter um trio elétrico maior que o do outro e assim por diante. Vale repetir: e chamam isso de estratégia. Enquanto os barulhos se multiplicam, os vazios aumentam.
Lembro sempre daquela historinha clássica, da carroça que passava todos os dias pelas estrada fazendo barulho. Um dia ela passou e não fez barulho, então o homem que guiava a charrete foi questionado e respondeu: hoje não está fazendo barulho porque a carroça está cheia.
A pergunta é: quando é que teremos uma política “mais cheia” e menos barulhenta? Quando é que a política será financiada para mostrar ideias, narrativas de presente e de futuro? Quando é? A resposta pode ser simples e clara: quando nós exigirmos isso de quem se coloca à frente de nós para nos governar. Quando nós deixarmos de receber e denunciarmos quem está dando tíquete de gasolina para ir a carreatas, quando nós deixarmos de votar no que faz mais barulho e votar no que faz menos. Quando decidirmos que sou eu quem muda a política e não o candidato. Aliás, as campanhas de hoje e de sempre são montadas para conversar com o que desejamos, com o que acreditamos, com o que queremos.
Mais um ano eleitoral e tudo se repete. O que ainda podemos fazer: olhar para os candidatos sob as lentes de duas frases. A primeira é um provérbio popular: "diga-me com quem andas que te direis quem és”. A segunda é de um frei dominicano: “As pessoas não mudam quando chegam ao poder, elas se revelam” (Frei Betto).
Uma campanha que tem muito barulho é sinal de um governo mais preocupado com a aparência. Uma campanha na companhia de pessoas negligentes é sinal de um governo corrupto. Uma campanha sem narrativas e sem planos é sinal de um governo desgovernado. Uma campanha com financiamentos exacerbados é sinal de um governo de interesses e interessados. Meça os candidatos. Cuidado com os muito barulhentos.