Bom, não é o novidade para ninguém a repercussão do caso do abraço do doutor Drauzio Varella à transexual e detenta Suzi. Há sete anos ela não recebia uma visita, não trocava olhares, não sentia, não falava. O choque de realidade foi justamente o abraço. Por outro lado, temos a família que fora atingida pelo crime praticado pela transexual. São dois lados feridos e machucados.
Não cabe a mim ser juiz de quem, como bem frisou o médico. Mas confesso que me peguei pensando em Rita Apoena quando diz que o “abraço é uma forma de um coração encostar no outro”, e me perguntei: o que aqueles dois corações transmitiram naquele momento e, ao mesmo tempo, o que sentiu o coração machucado de quem fora atingida pela ação violenta da transexual?
Drauzio é alguém entendedor da medicina, mas sobretudo um entendedor de humano. Um homem que gasta a vida para cuidar do homem deve, no mínimo, entender quem é o ser. Logo, seu abraço, naquele momento de carência profunda de um detento, “criminoso”, pudesse ser um remédio para amenizar a dor da solidão. Movido pelo momento, não pensou que o remédio que para um podia ser alívio, para o outro podia arder. Mas ele decidiu pelo abraço.
Uns veículos preferiram se ater à pauta dos crimes que a trans praticou e que a levou para a cadeia. Outros, ecoar o tanto que esse abraço incomodou a seres “politicamente corretos”. Outros ainda adotaram a postura de juízes a fim de incriminar o médico, e por aí segue. Mas, no fundo, quem são os incomodados por um abraço?
Talvez podem ser pessoas tão carentes ou ainda mais carentes do que a detenta, são pessoas que ainda não tiveram coragem de se confrontar com suas misérias e debilidades, mas que se acham perfeitas. Todo perfeito é aquele que ainda não se encontrou com suas imperfeições, por isso só aponta a imperfeição do outro.
Muitos compartilhamentos dessas opiniões preconceituosas e escandalosas nasceram dos que se dizem cristãos, ou seja, seguidores de um homem que abraçou prostitutas, corruptos, “bandidos”. Impressionante como que o escândalo da compaixão continua a escandalizar os cristãos ou (fariseus). A sociedade apta a julgar precisa se questionar. Jesus abraçou santos e pecadores. Ele não selecionou ninguém para receber seu abraço.
Talvez o abraço sincero possa curar o coração de quem feriu e de quem foi ferido e, até mesmo, o coração de quem julga. Já bem nos diz a canção: “tudo o que a gente sofre, num abraço se dissolve”. Quando temos olhos que compreendem, vamos entender a dor da família vitimada e a dor de quem vitimou; e entender o abraço de um médico ateu que, a meus olhos, foi um abraço muito mais cristão do que muitos que se dizem como tal.