Nesta semana, em evento inédito, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores para falar sobre nossa urna eletrônica e sua sensibilidade a fraudes. Para sustentar sua narrativa, fez até um Power Point, exibiu áudios, evidenciou um conjunto de situações para tentar persuadir os embaixadores de que as eleições deste ano correm sérios riscos. Aliás, não só esta eleição, mas também a de 2018, que por sinal, segundo Bolsonaro, já foi fraudada. (Então por que o senhor não pediu nulidade, saiu da presidência e solicitou novo pleito?) Nossas urnas podem e devem ser questionadas. Isso amplia a nossa segurança democrática. Mas calma, para Jair não é isso que está em jogo.
Do ponto de vista de comunicação, é sempre muito importante a gente analisar o contexto desse encontro, o lugar em que ele aconteceu (Palácio da Alvorada), quem foram os interlocutores (embaixadores – representantes internacionais. Bolsonaro quis conversar com mundo), quem estava junto (alguns dos seus ministros), que elementos o presidente reuniu ("faketuais", e não factuais).
Dado o panorama, há uma pergunta: com que “opinião” os embaixadores saíram dessa reunião? Segundo um dos principais jornais dos Estados Unidos, embaixadores temem que Bolsonaro esteja preparando as bases para uma tentativa de golpe, se perder as eleições presidenciais deste ano. O jornal também diz que Bolsonaro "parece estar aderindo ao plano de Donald Trump”.
Piero Lazzeri, embaixador da Suíça no Brasil, publicou numa rede social: “Participei hoje no Palácio da Alvorada do encontro do presidente da República com chefes de Missão Diplomática. No ano do Bicentenário do Brasil, desejamos ao povo brasileiro que as próximas eleições sejam mais uma celebração da democracia e das instituições”.
Pergunta irônica: presidente, será que os embaixadores serão embaixadores da mensagem fraudulenta do Power Point? Se Bolsonaro tinha esse objetivo, parece que não conseguiu ir tão bem na estratégia. Por outro lado, uma vez mais, ele ataca as instituições e mostra para o mundo que ele é “engenheiro do caos”. Já falamos disso outras vezes: Bolsonaro cresce em cima do caos. Atacar, flertar, endossar narrativas (dos que o endossam) é uma forma de ele conversar com sua base.
Recentemente, percorrendo uma rede social eu via essa frase: “Deram o fuzil para um chimpanzé e agora ninguém tem coragem de ir lá pegar de volta”. Quem poderá nos defender?
Se você pensa no Congresso, Arthur Lira até agora está em silêncio. Se você pensa que na Procuradoria Geral da República, até agora, Augusto Aras está em silêncio. Se você pensa no Supremo Tribunal Federal, até agora eles não “tomaram atitude concreta”. Se você pensa que são as urnas, para Bolsonaro elas não são legítimas.
Quem poderá nos defender?