Está cada vez mais comum vermos manchetes e noticiários falando e realçando sobre os “atentados” políticos dentro dos templos religiosos católicos e protestantes. Uma pesquisa do Datafolha recente, inclusive, deu conta de enfatizar que nesse segundo turno, 49% das pessoas dizem dar muita importância à religião para decidir o voto. Talvez seja esse um tempo inédito quando o tema supera a economia, a justiça social, educação, saúde. Mas por que religião?
Há uma tremenda “preocupação” da direita política com o fechamento das igrejas por parte de uma possível “ditadura” da esquerda militante. Esses citam a Nicarágua (que sofre abruptamente com a ditadura cruel), Venezuela e outros países, como exemplo do que se pode tornar o Brasil com o advento do Lula no Planalto ou à esquerda no poder. Quase sempre, essa preocupação vem dos destinatários católicos e protestantes ultraconservadores aliados e mantenedores do bolsonarismo.
No último 12 de outubro, o que vimos em Aparecida foi um retrato daqueles e daquelas que se expressam como tal. Na porta do Santuário, agressões, ataques, beberrões em filas para aplaudir e recepcionar o “Messias”. Anularam a fé, a devoção, o respeito e a religião a que dizem pertencer. Em vídeos nas redes sociais, um dos apoiadores apontava para a caneca de cerveja com a imagem do presidente e gritava: “Esse aqui é Deus”.
Vários cristãos católicos começaram a se expressar nas redes, manifestando a repugnância pelo ato e pelo fato. Uns replicaram a fala de um padre de Aparecida: “Hoje não é dia de pedir votos, mas de pedir benções”. Essas manifestações soaram como ataque para os conservadores católicos de plantão. Esses começaram a ir pra rede social e metralhar com armas de ódio todos aqueles e aquelas que pensam diferente, ou mesmo aqueles que pensam como a “doutrina” da Igreja. Um desses ataques chegou hostilmente ao conhecido Pe. Zezinho, que escreveu: “Depois das ofensas de hoje, contra o papa, contra os bispos, contra mim, com calúnias e palavras de baixo calão, estou fechando esta página até dia 31 de outubro”, frisou.
Se no início do cristianismo, pagãos perseguiam cristãos, chegamos no tempo de hoje com “cristãos” perseguindo cristãos, tudo em nome de um messias político. São tempos densos e tensos. Se o messias político perder na urna, teremos uma queda de autorização do discurso. Se ele vencer, teremos a confirmação da narrativa e das ideias. Sua vitória pode ser compreendida como uma força motriz que continuará a ser disseminada, defendida, questionada e guerreada.
Por parte de seus seguidores, a perseguição às Igrejas parece que já começou. Se a Igreja não prega a doutrina que se quer ouvir, repreende-a, hostiliza seus membros, intitula de baixarias os seus representantes. Buscam-se mil maneiras de anular, e não de respeitar. Aquilo que estão fazendo com a Igreja, fazem com outros segmentos e instituições da sociedade. Pelo que parece, aquilo que os ultraconservadores projetam na esquerda ditadora, eles já fazem pela via do autoritarismo que acusam a oposição.
O bolsonarismo se tornou uma religião. Uns questionam: não, isso não é religião, é seita. Mas se pensarmos que toda religião liga alguém à algum Deus, e se tem gente que já reproduz esse Deus no messias político. Eles têm doutrina, têm fé, têm templos, têm bandeira, têm evangelho, têm intercessores, devoções e caminhadas.
Tudo isso pode não acabar em 30 de outubro. E pode ser que continuemos a ver no Brasil “cristãos” de um messias político e cristãos de um Messias de Nazaré. Ainda que ambos sejam messias, o Deus dos Messias são diferentes: um está acima de tudo e o outro no meio de todos.
Enquanto isso, cristãos podem continuar a perseguir cristãos.