Uma mulher negra no Espírito Santo tem quase quatro vezes mais chances de ser morta por um disparo de arma de fogo do que uma mulher não negra.
Uma desigualdade racial evidenciada pela taxa de mortalidade por este tipo de armamento, que em terras capixabas atinge 3,4 a cada 100 mil mulheres. Entre as não negras ela cai para 0,9.
Considerando os dados do país, as vítimas de homicídios são majoritariamente negras: 67,5%. Uma proporção que chega a 72,3% nos casos de violência armada.
Na comparação com feminicídios o perfil é semelhante, 63,3% são mulheres negras. Dentre as vítimas deste ano está a comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, de 37 anos, morta na madrugada desta segunda-feira (23) com cinco tiros.
O recorte racial está na 5ª edição do relatório Pela Vida das Mulheres: o papel da arma de fogo na violência de gênero, com análise de 2024. Produzido pelo Instituto Sou da Paz, ele traz informações sobre a violência letal e não letal contra as mulheres a partir de dados do sistema de saúde.
“Ano após ano, as mulheres negras continuam sendo as mais afetadas. Esse padrão persistente evidencia como desigualdades históricas de raça e renda se combinam para ampliar vulnerabilidades e aprofundar injustiças, exigindo respostas públicas que reconheçam essa desigualdade e trabalhem ativamente para dirimi-la”, aponta o documento.
O estudo considerou como negras as que se declaram como pretas e pardas - é o caso de Dayse -, segundo o IBGE. O grupo das não negras inclui brancas, amarelas e indígenas.
No ano de 2025, o Espírito Santo registrou 35 casos de feminicídios, em 24 as vítimas eram negras. Outras 7 eram brancas e 4 não tinham identificação de cor. Este ano, dos cinco casos registrados até esta terça-feira (23), três eram negras.
No mesmo período (2025 a 2026), foram registrados 94 casos de homicídios de mulheres, em 62 deles as vítimas eram negras. Número que pode ser maior considerando que em 20 deles não houve identificação da cor.
Armas
O documento enfatiza que a presença de uma arma de fogo é um fator determinante para a morte, pois aumenta em cerca de 85% a chance de letalidade em comparação a outros meios de agressão, como força física ou objetos cortantes.
No Sudeste, segundo a pesquisa, o uso de armas de fogo responde por 35% dos homicídios de mulheres, no território capixaba esse percentual sobe para 47%, igualando-se à média nacional.
Outro ponto é que a violência armada ocorre em um contexto de repetição. Foi identificado pelo estudo, no ano de 2024, que entre as notificações que envolvem uso de arma de fogo, 35% das vítimas já haviam sofrido outros episódios de agressão atendidos pela saúde.
E em 39% dos casos, os agressores são pessoas próximas, incluindo parceiros e ex-parceiros, familiares, amigos e conhecidos. Destas, 24% são parceiros ou ex-parceiros. Situação ainda mais evidenciada quando a violência ocorre em casa
Como aconteceu com a comandante da Guarda Municipal de Vitória, surpreendida pelo ex- namorado em seu quarto, onde foi morta com cinco disparos.
Foram analisados na pesquisa estatísticas da saúde sobre as mortes por agressão (homicídios), disponibilizadas pelo Sistema de Informações sobre Mortalidade (Sim/Datasus) e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan/Datasus). Além de dados da segurança pública sobre feminicídios.
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