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Vítimas

Silenciamento favorece ambiente para violência sexual contra crianças

As abordagens de profissionais que acolhem casos dessa natureza, quando iniciam uma investigação acerca dos fatos, identificam facilmente as etapas negligenciadas

Publicado em 16 de Maio de 2022 às 02:00

Públicado em 

16 mai 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

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Verônica Bezerra

Pipa
Torna-se importante, quiçá necessária, a campanha, em forma de levante virtual, “Agora Você Sabe”, do Instituto Liberta, quando se apresenta como potente mecanismo de denúncia de violência sexual contra criança Crédito: Pixabay
Estudo realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com dados de 2021 e que foram publicizados recentemente, revelou que o estupro é o crime mais praticado contra crianças no Brasil, seguido de maus-tratos, lesão corporal e mortes.
Esses dados consolidam uma realidade que tem alcançado evidência nos noticiários, ao passo que desafiam os sistemas de segurança e proteção estatal, colocando em xeque, sobretudo, as relações familiares e sociais, e por consequência a humanidade das pessoas.
A violência sexual contra a criança e o adolescente acontece no locus privado, que, em teoria, deveria ser local de acolhimento e proteção. Vale lembrar que se configura como um crime que tem a intimidade e a confiança na antessala. O agressor sempre está próximo e, em muitas das vezes, é aquele que deveria proteger.
Para além do algoz, o entorno da vítima-infante precisa ser analisado, considerando que muitos dos que estão perto, por fatores multicausais, ignoram os sinais, negam o acontecimento, ficam incrédulos frente as evidências, permanecem inertes à constatação do fato e relativizam a responsabilização.
Nessa esteira, torna-se importante, quiçá necessária, a campanha, em forma de levante virtual, “Agora Você Sabe”, do Instituto Liberta, quando se apresenta como potente mecanismo de denúncia de violência sexual contra criança. O Instituto ainda revela que esta violência se encontra cada vez mais perto de crianças, e que, 85,2% dos autores são conhecidos da vítima.
A frase gatilho da campanha nos impõe uma reflexão acerca de qual seria a nossa ação diante da ocorrência de um crime sexual contra uma criança próxima. E ainda: e se o algoz também pudesse ser uma pessoa integrante do meu círculo de amizade ou familiar?
As abordagens de profissionais que acolhem casos dessa natureza, e de tamanha complexidade, quando iniciam uma investigação acerca dos fatos, identificam, facilmente, as etapas negligenciadas já trazidas à baila: ignorar, negar, não acreditar, não fazer nada e relativizar, verbos que representam o núcleo constitutivo da cultura do silenciamento.
Em várias situações de crime, a cultura do silenciamento agudiza e perpetua a violação. No caso do estupro contra criança e adolescente, se apresenta como a face mais grave e violadora, a partir do fato em si. É representado pelo discurso da acomodação e de defesa, assumindo a condição de exaltação do silêncio, como forma de preservação, mesmo que demasiadamente violadora, acarretando uma imobilidade e culpa dos silenciados. Ademais, quando se apresenta na forma de discurso do elogio, fado ou sina, adquire contornos de negador da humanidade, cuja responsabilização não pode eximir ninguém.
O silenciamento não é o caminho para enfrentar nenhuma situação de violação de direitos, principalmente, quando as vítimas são sujeitos-de-direitos em desenvolvimento, que requererem acolhimento, cuidado e escuta qualificada.
O diálogo aberto e adequado sobre sexualidade para cada faixa etária, rompimento de tabus históricos-estruturais acerca dos corpos, observação atenta ao cotidiano das crianças e adolescentes, a existência de uma rede de proteção doméstica e a atuação de equipamentos institucionais capacitados são os caminhos para enfrentar essa questão que silencia a infância, desidrata a dignidade e aniquila a esperança.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Seguranca Publica

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