No último dia 20, uma aeronave de grande porte foi obrigada a abortar o pouso no aeroporto de Vitória, o que de pronto não é nada incomum. O que diferencia foi a motivação para a adoção do procedimento: a pista tinha sido ocupada por muitos caranguejos e o pouso nessas condições apresentaria risco à aeronave.
O fato inusitado nos remete a uma reflexão, para além das normativas aeronáuticas e teorias biológicas, as sociopolíticas. Como pode um animal invertebrado alterar a rota de uma aeronave de grande porte?
O referido crustáceo possui uma carapaça resistente que nos ensina que precisamos criar uma capa protetora para enfrentar as situações a que estamos expostos. Ainda, apresenta vários pares de patas com funções específicas, incluindo de defesa e alimentação, que possibilitam sua proteção contra os predadores e a sua subsistência.
Indo além, são encontrados em vários ambientes (marinho, na água doce ou terrestre) e ainda se alimentam de diferentes formas, incluindo carniça, caracterizando-se como resistente às alterações e situações. E mais, serve de alimento disputado em cidades litorâneas e possui, para sua não extinção, uma regra de proteção institucional-ambiental, que consiste na proibição de pesca dessa espécie nos meses entre janeiro e março, ocasião em que eles saem das suas galerias para acasalarem e liberar os ovos.
A resistência é a marca desse animal, contudo, no dia 20 eles mostraram que, além dessa característica, quando a união de pequenos se apresenta, uma grande estrutura pode alterar a rota, servindo de exemplo para todos aqueles grupos que fazem da união sua bandeira de luta para modificar um sistema que tem por principio a exploração dos mais fracos.
O episódio inusitado, que ganhou alcance nacional, ensina também o respeito que se deve ter com os pequenos, pois se esses quiserem, podem, unidos, mudar o rumo de qualquer sistema social ou político.
Destaca-se nesse caso a força da coletividade, quando as individualidades dão lugar a força do todo. É assim em toda a nossa existência, muito bem representada pela natureza e pela vida, em que a atuação sistêmica é o que mantém tudo funcionando. A grande questão é que não compreendemos isso, muitas das vezes, na vida em sociedade.
Muitos se vangloriam do individualismo que praticam, esquecendo-se que a vida é relacional, e que uma vida individualizada culmina em solidão que produz muitos males, que com o tempo trasbordam e retornam para a coletividade como trauma e dor.
Temos mais chance quando estamos com os outros, pois como diz Clarice Lispector: “Quem caminha sozinho pode até chegar mais rápido, mas aquele que vai acompanhado, com certeza vai mais longe”. E digo mais, chega melhor.
Oxalá, aprendamos com os caranguejos de Vitória, também, além da resistência, organização e coletividade, a não somente andar de lado, mas ao lado.
Correção
28/03/2023 - 11:10
De acordo com a Zurich Airport Brasil, que administra o aeroporto de Vitória, ao contrário da frase do comandante do voo, havia a presença de apenas um caranguejo na pista.