Em abril passado, foi instalada uma Comissão Parlamentar de Inquérito na Câmara dos Deputados, com o objetivo formal-justificativo de investigar “invasões” de terra e supostas fontes de financiamento, mas que ao fim e ao cabo pretende criminalizar o maior e mais bem organizado movimento social brasileiro.
Em uma campanha capitaneada pela bancada ruralista, no momento em que o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra iniciou a Jornada Nacional de Luta pela Terra e Reforma Agrária em memória a chacina de El Dourado de Carajás, ocorrida no Pará em 1996, em que 19 trabalhadores sem-terra foram assassinados.
O MST é indubitavelmente o mais popular, combativo e democrático movimento popular do Brasil. Nascido em 1984, congregando 500 mil famílias assentadas e 100 mil acampadas, tem como luta de primeira hora o direito à terra, em um país com dimensões territoriais imensas, mas concentração de terra digna de nota, que tem como consequências uma desigualdade social a cada dia mais agudizada. Situação causadora de miséria e inúmeras violações de direitos humanos no campo.
Um país que ainda não fez a reforma agrária, em que o modelo de propriedade de terra vigente é o de capitanias hereditárias, que a relação em muitos dos casos é escravocrata, em que o extermínio de pessoas na luta por terra é uma prática impune e que a fome é uma realidade mesmo com tanta fartura em poucas mesas abastadas, um movimento da estatura do MST incomoda muito.
Adicione a isso a proposta político-formativa de seus militantes, que faz tremer as elites burguesas e oligárquicas, pois no final das contas, um povo ciente dos seus de direitos e com propósito de luta organizada se torna um perigo para o status quo.
O MST segue o previsto na Constituição Cidadã, no que concerne o uso social da terra, respeitando o meio ambiente e sendo produtiva. É o maior produtor de arroz orgânico na América Latina e defende a Reforma Agrária Agroecológica, capaz de facilitar o acesso à terra como direito humano, produzir alimento saudável e sustentável para toda a sociedade brasileira, oferecer ao mercado alimentos salubres e livres de agrotóxicos, valorizar o papel da mulher trabalhadora do campo, expandir o número de cooperativas de agroecologia e ampliar a soberania e a biodiversidade alimentares no combate à fome e à insegurança alimentar, como bem pontuou Frei Betto em recente artigo no IHU “Por que o MST assusta tanto?”
É por isso que assusta tanto, pois luta para que uma das nações mais ricas do mundo, e que figura entre as cindo maiores produtoras de alimentos, deixe de ser um país periférico, colonizado, marcado por abissal desigualdade social, deixe de ver um dia um dia a triste realidade, bem retratada nos versos de João Cabral de Melo Neto em “Funeral de um lavrador”: “Essa cova em que estás, com palmos medida, é a cota menor que tiraste em vida; é de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe neste latifúndio; não é cova grande, é cova medida, é a terra que querias ver dividida; é uma cova grande para teu pouco defunto, mas estarás mais ancho que estavas no mundo; é uma cova grande para teu defunto parco, porém mais que no mundo te sentirás largo; é uma cova grande para tua carne pouca, mas a terra dada não se abre a boca!”