Publicado em 23 de maio de 2023 às 20:37
BRASÍLIA - Deputados ligados à pauta ruralista e parlamentares da base do governo Lula (PT) trocaram acusações e protagonizaram uma série de bate-bocas durante sessão da CPI do MST realizada nesta terça-feira (23).>
A sessão foi marcada por uma artilharia da oposição contra o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) – a maioria do colegiado é formada por deputados ligados a ruralistas e integrantes da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária), uma das maiores forças da Casa.>
Esses parlamentares se referiram ao movimento e a seus integrantes como "bandidos", "marginais" e "maloqueiragem".>
Deputados governistas reagiram e afirmaram que é preciso investigar conflitos no campo, grilagem, invasão de terras indígenas, queimadas e desmatamento. Eles também fizeram críticas à gestão do agora deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) no período em que comandou a pasta do Meio Ambiente no governo Jair Bolsonaro (PL).>
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O acirramento dos discursos parlamentares iniciou-se desde os primeiros minutos da sessão, quando o presidente e o relator da CPI, respectivamente Tenente Coronel Zucco (Republicanos-RS) e Salles, se referiram à comissão como responsável por "investigar a invasão de propriedade, depredação de patrimônio público e privado e crimes correlatos" – ultrapassando o escopo original do requerimento de criação da CPI, que se propõe a analisar a atuação do MST.>
Essa mudança constou na primeira versão do plano de trabalho apresentado por Salles. O texto foi alvo de críticas de parlamentares governistas.>
Segundo disse Salles após a sessão, deverão ser apreciados nesta quarta (24) requerimentos de convocação dos ministros Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário) e Carlos Fávaro (Agricultura).>
O parlamentar afirmou à imprensa que deverão ocorrer diligências em estados como São Paulo, Bahia, Pernambuco e Mato Grosso do Sul e indicou que há "assentamentos que merecem ser visitados".>
"Quer seja por eventuais bons exemplos que possam existir e também, infelizmente, pelos maus exemplos que devam ser constatados", declarou.>
A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) acusou Salles de distorcer "sem pudor" o intuito da CPI e indicou que poderá judicializar temas abordados no colegiado, caso fujam de seu escopo.>
"O relator a seu bel-prazer quer alterar o conteúdo desta CPI. Eu pergunto: embasado em qual lei? Em qual critério? E, considerando que o relator e o presidente têm maioria nessa CPI, acredito que essa questão de ordem vai ser invalidada. Anuncio que qualquer membro que venha a ser convocado ou qualquer tema que fuja do escopo original pode ser judicializado", disse.>
Em entrevista à Folha de S.Paulo na semana passada, Salles levantou a possibilidade de a comissão atingir o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), ligado ao deputado Guilherme Boulos (PSOL-SP). Os dois articulam suas candidaturas à prefeitura da capital paulista em 2024.>
Ao longo da sessão foram solicitados cerca de uma dezena de pedidos de questão de ordem (instrumento utilizado por parlamentares para provocar dúvida ou questionar sobre a interpretação de regimentos).>
A presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), reforçou o pedido de Sâmia. A petista disse que o plano de trabalho lido por Salles "é um relatório prévio".>
"Ele está dizendo que teve depredação, invasão, crimes correlatos. Gostaria que se adequasse [o texto] para o que é exatamente o objetivo e a finalidade [da CPI], sem elencar rol de situação. Isso só virá a posteriori, quando tiver oitivas, conversas aqui, mas nunca com antecedência", disse.>
"Já que vamos ter uma CPI sem objeto, pelo menos que o objetivo seja mantido e não aumentado e apresentado no texto dessa forma de já criminalizar o MST", continuou a petista.>
Zucco, então, afirmou que o nome da CPI seria trocado no plano de trabalho, mas rejeitou questão de ordem apresentada por Gleisi afirmando que "nada impede" que a condução dos trabalhos da comissão "se dê de modo diverso daquele proposto inicialmente no plano de trabalho".>
Talíria Petrone (PSOL-RJ) afirmou que o ex-ministro de Bolsonaro "tem relação com o garimpo ilegal" e que o parlamentar "não ligou" para denúncias de madeira ilegal "porque ele não defende o meio ambiente".>
Salles reagiu indicando que poderá representar a parlamentar na Conselho de Ética da Casa. E ouviu como resposta de Sâmia: "Melhor responder no Conselho de Ética do que na Justiça, do que no Supremo [Tribunal Federal]".>
Um dos embates se deu entre o deputado Valmir Assunção (PT-BA), ligado ao MST, e o deputado Delegado Éder Mauro (PL-PA).>
Mauro afirmou que o "MST não é um movimento social, mas sim um movimento de marginais, que invadem, quebram, põem fogo em sedes de fazendas e matam animais". Valmir, então, reagiu: "Não sou marginal, eu não sou marginal". As parlamentares do PSOL saíram em defesa do petista e afirmaram que o deputado do PL "é acusado de ser torturador".>
Em outro momento, Sâmia protagonizou embates com Zucco, presidente da CPI, ao tratar da investigação contra o parlamentar.>
No dia 17 de maio, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou que a Polícia Federal dê prosseguimento a investigações contra Zucco por suspeita de incentivar e patrocinar atos antidemocráticos no Rio Grande do Sul e em Brasília.>
A apuração começou com uma notícia de fato levada ao Ministério Público Federal. O TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) encaminhou o processo ao Supremo por envolver um deputado federal.>
Zucco reagiu afirmando que esse assunto "não é pauta dessa CPI".>
Antes de a sessão começar, a deputada federal Camila Jara (PT-MT) ofereceu aos presentes copos com suco de uva produzidos em assentamentos do MST. "A gente pode experimentar como a gente consegue aliar a produção de alimentos saudáveis com o incentivo para agricultura familiar produzir cada vez mais", disse.>
A deputada ofereceu a Salles, que tomou o suco e posou para fotos segurando uma garrafa do produto.>
Uma nova sessão será realizada nesta quarta-feira (24) para análise de 15 requerimentos que já foram apresentados por parlamentares — até a tarde de terça (23), havia 102 disponibilizados no portal da Câmara.>
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