Ao longo da história da humanidade, o agrupamento humano de dois ou mais indivíduos, vinculados por fatores biológicos, ancestrais, legais ou afetivos, que podem ou não viver no mesmo ambiente, foi conceituado como família. Considerado um grupo social primário basilar da sociedade, incide e é incidido por outras pessoas e instituições. Responsável por ser o primeiro locus do processo educacional de uma pessoa, deveria promover a ambiência propícia para dirimirem-se as questões da vida.
Ao acompanhar a mudança ao longo dos tempos, o conceito de família sofreu alterações, tendo os aspectos morais sempre atravessado a sua apresentação e representação. Desde as sociedades coloniais, as relações, sempre complexas, acabavam por criar subsistemas familiares, com alguns que não gozavam do título de ser uma família. Os concubinatos entre os senhores brancos e negras ou índias não eram considerados famílias, mesmo atendendo os requisitos conceituais, permanecendo estigmatizados e invisibilizados. Essas situações que foram arrastadas pelo tempo até o dia de hoje são responsáveis por padrões morais e cínicos que reverberam nas relações sociais.
Os diversos modelos de famílias, cumprindo o papel de firmar-se como formas de vidas, têm colocado na pauta um assunto que ainda incomoda. Famílias que saem do formato plastificado – um homem, uma mulher e dois filhos - são consideradas fora do “padrão”. Famílias monoparentais, formadas por união estáveis homoafetivas ou em um contexto de poliamor ainda são formatos que não são acolhidos pela sociedade de forma natural, e acabam resistindo por meios de estratégias que acabam violando a essência.
Essas famílias “diferentes” são na verdade a maioria e acabam sendo depositárias de diversos preconceitos. Mesmo sendo famílias reais, capazes de desenvolver as potencialidades individuais de cada integrante, pousados na dignidade da pessoa humana, precisam buscar subterfúgios para sobreviverem em sociedade.
Em alguns casos, fazendo um contraponto a essas famílias reais e produtoras de potencialidades, mas que não “podem” ser consideradas famílias, temos as “famílias de margarina”. Essas atendem à formação padrão, mas na sua essência maquiam uma vida que somente serve para fotografias montadas para as festividades de fim de ano, mas que nos dias normais buscam alternativas clandestinas para respirar. São escravas de uma imposição patriarcal e capitalista e se submetem a um viver vazio e triste, que sepultam os sentimentos mais intensos e verdadeiros, e que ao fim é fábrica de transtornos e neuras que lotam consultórios e farmácias.
As famílias reais, não importando a formação, são locais de dor, mas também alívio. Produzem choro, mas também despertam sorrisos. Podemos por vezes não querer voltar, mas no final precisamos saber que existem. Podem ter aroma pão quentinho, mas em algumas horas precisa ter cheiro de água sanitária. É assim que a vida acontece, com a realidade e suas realizações, mas de tudo é importante que o suporte para toda e qualquer família, inclusive as que acham que precisam estar constantemente em um comercial de margarina, precisa ser real.
As famílias, qualquer uma, são locais de acolhimento, de aprendizado, de contradições, de estranhamentos, de desavenças, de construção, de desconstrução, de mutações e impermanências. São locais possíveis e falíveis. São locais em que se pode ficar ou se pode deixar, e está tudo bem.