A competição internacional de futebol masculino, a Copa do Mundo, foi criada em 1928, na França, e acontece a cada quatro anos, com a única exceção nos anos de 1942 e 1946 em virtude da Segunda Guerra Mundial. É capaz de mobilizar o país de um jeito ímpar, a ponto de alterar agendas, horário de funcionamento de instituições públicas e privadas.
Importante constar que o mundial feminino não tem esse alcance de mobilização e atenção, o que de saída já denota o caráter machista de um evento, em que um trio de arbitragem feminino é notícia, por exemplo.
Além de movimentar cifras bilionárias com anos de preparação e um mundo de expectativas, mobiliza mentes e corações, a ponto de ser torpor anestesiante e aumentar os casos de atendimentos médicos em emergências. É algo que se explica cientificamente, mas comodamente colocamos no quadrante delirante e romantizado da “paixão pelo futebol”, nos esquecendo dos meninos que foram mortos queimados no ninho.
É considerada uma festa sem precedentes quando uma seleção é campeã, a ponto de cogitar-se conceder feriado nacional, sendo o time melhor do mundo recebido com pompa e circunstância quando retorna para seu país, mesmo sabendo que a grande maioria dos jogadores já fazem morada em outras terras.
Em uma Copa, nem tudo é gol nem todos ganham.
A Copa do Mundo é, também, momento e lugar de violação e agudização de desigualdades, seguindo a liturgia dos grandes empreendimentos de produção seletiva de riqueza que na antessala é eivada de violações de direitos.
A Copa de 2022 realizada no Catar não está sendo diferente. Desde a sua preparação um número incontável de violações tem sido produzido, desvelando o lado desprezível do ser humano.
Desde que foi escolhida como sede do Mundial, o país peninsular árabe, que serpenteia o Golfo Pérsico, com paisagens desérticas e conhecida pelas edificações futurísticas e ultramoderna, tem sido alvo de inúmeras críticas e diversas denúncias de violações de direitos humanos.
As denúncias apontam, inobstante as contrariedades dos números, que trabalhadores que atuavam na construção da estrutura para receber o evento foram submetidos a condições sub-humanas de trabalho, chegando à ocorrência de diversas mortes. Chegou-se a quantitativos que passavam de seis mil, embora as autoridades locais tenham admitido cerca de 600 mortes.
Episódios de intolerância ocorridos logo no início também foram registrados, o que classifica o evento como violador e nos leva a uma análise crítica no sentido de que: vale a pena, enquanto humanidade, garantir um evento para uma elite, em que milhares de pessoas precisam perder a vida?
Como se não bastasse esse festival de violações, a postura de pessoas que participam do evento, como daqueles que se refastelaram em um banquete que teve no cardápio carne nobre empanada em ouro, em um contexto em que milhões de pessoas passam fome, é de causar repugnância sem precedentes.
O futebol já deixou, há muito tempo, de ser um mecanismo de inclusão social, considerando que muitos meninos que estão na várzea vivem em condições de subcidadania, em contraposição a poucos jogadores que esbanjam milhões e exalam arrogância.
Fica difícil olhar para um evento higienista e excludente de forma irrefletida, considerando o tanto de sofrimento que existe em seus bastidores.