Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Ataques em escolas

Aracruz: tragédia anunciada expõe o tipo de sociedade que somos

É indispensável estar atento aos sinais que são emitidos, para além da suástica ostentada na veste de matar

Públicado em 

05 dez 2022 às 02:00
Verônica Bezerra

Colunista

Verônica Bezerra

Desde a tarde do dia 25 de novembro, ao acompanhar a tragédia ocorrida em Aracruz, Espírito Santo, a filósofa política Hanna Arendt povoa meus pensamentos na busca de compreender o que aconteceu, mesmo ciente de que a “política de ódio” que vem se espraiando pelo tecido social contribui diretamente para crimes dessa natureza.
De prima facie, é imprescindível refutar toda e qualquer solução simplista e menorista para a situação. Pelo contrário, o fato ocorrido nos arrasta, enquanto indivíduo e coletivo, para o cerne da questão. Passou da hora de fazermos um exame de consciência para saber se pavimentamos, mesmo que timidamente, ações dessa natureza, ou refutamos com incisão as mesmas, ainda na sua incipiência.
A pequena cidade de Aracruz, no Norte do Estado, lançou ao mundo uma pergunta desafiadora: como são os filhos que estamos entregando ao mundo? Na contramão da pergunta cômoda que sempre fazemos: que mundo queremos deixar para nossos filhos? O mundo que deixaremos vai depender dos filhos que deixaremos.
Quando um jovem de 16 anos, de classe média, branco, que revelou que desde os 14 anos planejava realizar um ataque mortal, com poder destrutivo ainda incalculável e que obteve os subsídios para a ação, ao que tudo indica, em casa, é de uma urgência inconteste que paremos o mundo, não para descer, mas para tentar consertá-lo.
Hanna Arendt tinha como um dos seus conceitos mais importante, e que se modula bem ao episódio em Aracruz, a “banalidade do mal”. Ela trabalhava, inspirada em Kant, com a questão do mal radical, não pela sua intensidade, mas pelo seu enraizamento em quem o pratica. Como aquele que está preso na pessoa, fundamentado no ódio, exemplificando o antissemitismo nazista como um tipo desse mal. E nesse contexto, afastava-se da análise do mal pelo viés moral, e aproximava pelo viés político.
Entretanto, Arendt, ao herdar de Santo Agostinho uma maneira de enxergar a vida como um conjunto de ações em que se deve ter responsabilidade pessoal por tudo o que se faz, traz a justa medida para o caso de Aracruz.
O jovem de Aracruz deverá ser responsabilizado, na medida da lei vigente, por seus atos. Contudo, o caso não pode trazer à baila o tema da redução da maioridade penal, como saída simplista e irresponsável, considerando que não deverá ser depositado nos ombros desse jovem toda a responsabilidade pela barbárie.
Urge lembrar que uma das armas utilizadas era do Estado, e um livro impróprio que dissemina um pensamento de ódio que, infelizmente, tem sido propagado à luz do dia, estão na centralidade do caso. É preciso olhar para a família e para tantas outras que estão ao nosso redor, e não somente para o jovem. Isso é profundo demais, ao mesmo passo que dilacerante.
É indispensável estar atento aos sinais que são emitidos, para além da suástica ostentada na veste de matar. É fundamental compreender o que está depositado no mais profundo dessa alma, muitas das vezes por autoridades que banalizam o mal e adotam a eliminação do outro como prática rotineira, para começarmos a termos a dimensão do estrago, irreparável, que ações e discursos irresponsáveis acarretam na vida das pessoas.
Foi lacerada uma ferida de impossível cicatrização. O saldo, devastador, da manhã do 25 de novembro, não é somente o número de mortos e feridos, é muito mais. Talvez estejamos conseguindo atualizar Auschwitz, uns pela ação, outros pela omissão. Tem dever de casa para todo mundo: família, escola, comunidade, sociedade, entidades privadas, empresas e instituições públicas.
O que aconteceu em Aracruz tem a ver comigo, tem a ver com você. Tem a ver com todos nós. Seja como vítimas ou algozes.

Verônica Bezerra

Advogada, coordenadora de Projetos CADH, mestre em Direitos e Garantias Fundamentais (FDV) e especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem BBC Brasil
A história por trás da tradição de comer ovos de chocolate na Páscoa
Abertura da exposição ''Amazônia'', do renomado fotógrafo Sebastião Salgado
No Cais das Artes, a emblemática mostra de Sebastião Salgado
Imagem de destaque
As doenças antes incuráveis que estão ganhando tratamentos graças à IA

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados