Semanas atrás, A Gazeta publicou em sequência duas matérias sobre o mesmo tema, mas com pontos de vista contraditórios. Em ambos os casos os textos derivavam do desejo de muitas pessoas de viverem em maior contato com a natureza.
Em função disso, a primeira reportagem focava justamente em condomínios horizontais e loteamentos promovidos por empresas do mercado imobiliário capixaba, dando a entender que se tratam de empreendimentos legalizados.
Em contrapartida, a segunda reportagem abordava o grande número de desmatamentos ilegais realizados para implantação de loteamentos irregulares. Uma operação do Ministério Público do Espírito Santo constatou que a expansão imobiliária tem provocado a derrubada de vários trechos da Mata Atlântica, principalmente na região Serrana do Estado.
O boom que tem motivado uma migração reversa, ao contrário da fuga do campo do século passado, tem explicação.
No início deste ano, a Microsoft divulgou uma pesquisa que indicava que a maioria dos trabalhadores de todo o mundo, incluindo os brasileiros, gostariam de migrar do trabalho presencial para o híbrido e/ou do híbrido para o totalmente remoto. Isso ocorreu, claro, a partir da pandemia da Covid-19, mas também possibilitado pelas novas Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs) – que permitem que as pessoas possam realizar diversas atividades à distância –, assim como por uma nova consciência coletiva em relação ao habitat.
A ideia de moradia, local onde desempenhamos nossas atividades cotidianas, se vê alterada, implicando na sua priorização, em oposição ao foco que se dava ao trabalho como meio de alcançarmos qualidade de vida. O termo workaholic (trabalhador compulsivo), que tanta moda fez tempos atrás, já deixa de fazer sentido nos dias atuais.
Eu mesmo, por exemplo, já conheci quem tenha abandonado um trabalho presencial em Londres para exercê-lo remotamente “no meio do mato”, desde uma região no interior da serra espírito-santense. Neste ponto, não custa lembrar, tal pessoa ganha seu salário em moeda estrangeira valorizada que, ao ser convertida para real, lhe possibilita ter um bom padrão de vida no Brasil ou, pelo menos, uma moradia com padrão superior à que tinha na cosmopolita capital inglesa, cujos preços de aluguéis são altíssimos.
Uma questão, porém, que ainda merecerá reflexão, é como os governos em suas diversas esferas reagirão a essa migração da atividade econômica.
No modo remoto, o trabalhador gasta seu dinheiro num lugar distinto do qual ele recebe seu salário ou pagamento por serviços prestados. Enquanto o dinheiro que é gasto (com moradia, alimentação, lazer, educação dos filhos, etc) no domicílio em que se vive impulsiona a economia local, a cidade que abriga a empresa que remunera o trabalhador remoto perde receita.
É claro que Londres tem problemas mais sérios para se preocupar no momento, pois sua economia é forte o bastante para não depender da migração de um brasileiro que voltou para sua terra e, ainda assim, continua trabalhando para uma empresa sediada na Inglaterra. Mas se essa é uma tendência global que deve seguir crescendo, se pode pensar que logo os governos deverão reagir buscando meios de compensar as perdas populacionais e, consequentemente, econômicas, da migração laboral.
No momento, a União Europeia já se encontra numa queda de braço com as gigantes techs, como Google, Apple, Facebook e Amazon por questões tributárias, mas não sob o aspecto da desterritorialização domiciliar de trabalhadores online.
Há pouco tempo, debatia-se a globalização como um fenômeno da desterritorialização que levou empresas manufatureiras a buscarem mercados com mão de obra mais barata, para lá produzir os itens dos seus catálogos de venda. Deste modo, compramos hoje roupas, calçados e todo tipo de quinquilharia de países como Índia, Vietnã e principalmente a China.
E o fato é que, mesmo com a chiadeira inicial, os mercados se acomodaram, e hoje achamos tudo isso a coisa mais normal do mundo.
Quem sabe não se dará o mesmo com o trabalho remoto feito num distante refúgio?
Na verdade, não é algo simples de se resolver, talvez sequer haja uma solução conciliatória e apenas tenhamos que aceitar tais transformações como mais um episódio da aventura civilizatória.