O Espírito Santo vive, em 2025, uma conjuntura econômica marcada por contrastes: por um lado, a manutenção de fundamentos sólidos e uma gestão pública reconhecida nacionalmente; por outro, o surgimento de riscos externos que podem comprometer setores estratégicos da economia capixaba.
Este texto apresenta um panorama sobre o desempenho econômico do Estado, com foco nas projeções para o segundo semestre e nos impactos da tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos.
A conjuntura do 1º semestre de 2025
O setor de comércio varejista capixaba registrou uma retração de 0,9% em maio de 2025 comparado a abril, mas o varejo ampliado cresceu 0,5% no mesmo período. Em uma análise anual (maio de 2024 a maio de 2025), as vendas do varejo capixaba e do varejo ampliado expandiram 6,5% e 1,1%, respectivamente. No acumulado do ano até maio, o varejo capixaba cresceu 4,8%, e o varejo ampliado avançou 3,4%.
A produção industrial capixaba em maio de 2025 registrou um robusto crescimento de 23,9% em comparação com maio de 2024, superando a média nacional. A indústria extrativa foi o principal impulsionador, com alta de 35,9%, destacando-se a produção de petróleo (+13,2%) e gás natural (+27,2%). A indústria de transformação também cresceu 4,1%, com a metalurgia avançando 13,2%. No acumulado do ano até maio, a indústria geral do Espírito Santo cresceu 0,3%.
Em maio de 2025, o mercado de trabalho capixaba gerou 3.693 novos empregos formais, elevando o estoque total para 985.340 vagas. A indústria de transformação foi o setor com maior saldo positivo, criando 1.834 postos, impulsionado pela fabricação de produtos alimentícios e metalurgia. A indústria extrativa também contribuiu com 314 novas vagas. No acumulado do ano, o Espírito Santo criou 18.066 empregos formais.
Projeções e cautela para o 2º semestre de 2025
As projeções de mercado indicam um cenário de moderado otimismo para o segundo semestre de 2025. A mediana das expectativas para o crescimento do PIB do Brasil em 2025 mantém-se em 2,23%, com a taxa Selic projetada em 15% ao ano. A projeção do Itaú para o PIB brasileiro em 2025 também é de 2,2%, embora com um viés de risco baixista devido ao desempenho mais fraco no segundo trimestre e ao impacto das tarifas dos EUA.
Além disso, o Estado tem uma carteira robusta de investimentos anunciados para o período de 2023-2028, totalizando R$ 97,9 bilhões, um aumento de 49,7% em relação a 2022-2027, com 1.192 projetos, dos quais R$ 70,7 bilhões já estão em execução. Setores como manufatura, eletricidade e gás, e transporte, armazenagem e correio são os principais destinos desses investimentos.
Apesar do ambiente macroeconômico complexo e das vulnerabilidades estruturais, a resiliência dos indicadores domésticos de curto prazo e o desempenho positivo da agricultura e do mercado de trabalho contribuem para uma perspectiva de crescimento do PIB brasileiro. Há também a expectativa de que o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, inicie cortes de juros ainda em 2025, o que pode impactar positivamente o cenário global e, por extensão, o Brasil e o Espírito Santo.
Há motivos para otimismo moderado no segundo semestre:
- Crescimento projetado de 2,4% para o ano, segundo a Resenha Regional publicada pelo Banco do Brasil no último dia 07/07 (ainda sem considerar o efeito das tarifas dos EUA);
- Investimentos em infraestrutura e energia, como o FPSO Maria Quitéria e a Usina 3 da Samarco, devem impulsionar a produção de petróleo, gás e minério;
- A agropecuária segue aquecida, com destaque para a colheita do café e a formalização do trabalho rural;
- O mercado de trabalho permanece dinâmico, com taxa de desemprego de 4% no 1º trimestre/2025, uma das menores do país.
Contudo, o ritmo de crescimento será inferior ao de 2024 (4,0%, segundo estimativa do Banco do Brasil), refletindo a bienalidade negativa do café e os efeitos de juros elevados e incertezas externas.
Portanto, com base nas projeções e nos investimentos em andamento, é possível ser otimista com moderação sobre o desempenho econômico do Espírito Santo no segundo semestre de 2025, mas com a ressalva de que os desafios globais, especialmente as políticas comerciais, podem gerar incertezas. Ou seja, não existe crescimento econômico “contratado” no médio/longo prazo para o Estado em função desse cenário de instabilidade.
Impacto do tarifaço no ES
O anúncio do presidente Trump de uma tarifa de 50% sobre todas as exportações de bens brasileiros para os Estados Unidos, com entrada em vigor em 1º de agosto de 2025, representa um significativo desafio.
Para a economia capixaba, o impacto pode ser direto, especialmente em setores que têm os EUA como um mercado relevante. Setores mais afetados:
- Rochas ornamentais: 82% das exportações brasileiras do setor vêm do ES; 78% vão para os EUA;
- Aço e derivados: 66% das exportações capixabas têm como destino os EUA;
- Celulose: 51% da produção exportada vai para o mercado americano;
- Café solúvel: 40% das exportações capixabas são destinadas aos EUA;
- Gengibre, ovos e macadâmia: produtos agrícolas com forte dependência do mercado norte-americano.
A medida pode inviabilizar negócios, gerar cancelamentos de contratos, queda nas vendas e desemprego em cadeias produtivas inteiras. Por isso, a negociação é um bom caminho a ser seguido com os americanos, mas a diversificação de mercados não deve ser descartada.
O Espírito Santo entra no segundo semestre de 2025 com bases econômicas sólidas, gestão fiscal exemplar e infraestrutura logística estratégica. A projeção de crescimento de 2,4%, embora moderada, é uma boa taxa se levarmos em conta os desafios externos.
A tarifa de 50% imposta pelos EUA é um fator de alerta para o Estado, dada sua alta exposição ao comércio exterior. A capacidade de resposta institucional, a diversificação de mercados e o diálogo diplomático serão cruciais para mitigar os impactos e preservar o dinamismo da economia capixaba.