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Economia

Orçamento público brasileiro foi capturado por grupos de interesses?

O orçamento público brasileiro foi capturado por grupos de interesse há bastante tempo. Minimizar o rent-seeking no Brasil é um desafio hercúleo, mas essencial para construir uma economia mais justa, eficiente e próspera

Públicado em 

07 jun 2025 às 04:00
Sávio Bertochi Caçador

Colunista

Sávio Bertochi Caçador

O orçamento público de um país é a maior expressão de suas prioridades e de como a renda nacional é distribuída. No Brasil, infelizmente, o orçamento público é um terreno fértil para a prática do que a teoria econômica chama de rent-seeking, dada a complexidade do sistema político, a burocracia, a centralização de decisões, emendas parlamentares e a influência de grupos de interesse.
Cabe lembrar que em Economia, "renda" é qualquer pagamento a um fator de produção (como trabalho, capital, terra) que excede o mínimo necessário para mantê-lo em seu uso atual. Pense assim: se o salário médio para uma pessoa trabalhar é R$ 2.000, e ele consegue um emprego que paga R$ 3.000, os R$ 1.000 extras são considerados "renda econômica". Ele está ganhando mais do que o estritamente necessário para que continue fazendo seu trabalho. Essa renda pode surgir de talentos únicos, monopólios ou, como veremos, de privilégios concedidos pelo governo.
Agora, vamos ao rent-seeking propriamente dito. Traduzido literalmente como "busca por renda", rent-seeking se refere aos esforços que indivíduos, empresas ou grupos de interesse fazem para obter renda econômica que não é gerada por meio de produtividade ou inovação, mas sim por meio da manipulação do ambiente político ou regulatório para a sua própria vantagem.
Em outras palavras, em vez de gastar tempo e recursos criando um bolo maior (produzindo bens e serviços de forma mais eficiente), o rent-seeker gasta tempo e recursos tentando pegar uma fatia maior do bolo já existente, ou até mesmo tentando mudar as regras do jogo para que sua fatia seja garantida ou aumentada, sem necessariamente agregar valor à sociedade.
O ponto central é que a "busca por renda" não é produtiva. Ela não gera riqueza, não inova, não melhora a eficiência. Pelo contrário, desvia recursos que poderiam ser usados de forma produtiva para atividades de lobby, advocacia e burocracia.
Exemplos de como o rent-seeking se manifesta no orçamento público brasileiro:
  • Subsídios e isenções fiscais: empresas e associações setoriais investem pesado em lobby para garantir que suas atividades sejam isentas de certos impostos ou recebam subsídios. Isso gera uma renda para essas empresas que não deriva de sua competitividade, mas da sua capacidade de influência política. Muitas vezes, esses subsídios são concedidos sob o argumento de "gerar empregos" ou "estimular a indústria", mas os resultados em termos de produtividade e geração de valor agregado são questionáveis;
  • Emendas parlamentares: grupos de interesse, construtoras, associações e até mesmo ONGs buscam parlamentares para que suas demandas sejam incluídas no orçamento através de emendas. Isso pode levar ao financiamento de obras e projetos que não são prioritários para o interesse público geral, mas que beneficiam grupos específicos ou o próprio parlamentar em sua reeleição;
  • Tributação regressiva e exceções: grupos de alta renda e setores específicos fazem lobby para manter ou criar isenções e exceções fiscais que os beneficiam, enquanto a carga é transferida para o restante da população.
Os principais resultados negativos do rent-seeking no orçamento público brasileiro são: (i) distorção da alocação de recursos; (ii) aumento da dívida pública e da carga tributária; (iii) menor crescimento econômico; (iv) aumento da desigualdade social; (v) desmoralização da política e corrupção.
Muito dinheiro, cédulas
Dinheiro Crédito: Shutterstock
Minimizar o rent-seeking no orçamento público brasileiro exige uma abordagem multifacetada e de longo prazo, combinando reformas institucionais, transparência, fortalecimento de órgãos de controle e conscientização social. Exemplos de medidas que poderiam ser tomadas nesse sentido:
  • Reforma e simplificação tributária ampla: a recente reforma tributária sobre o consumo é um passo importante na simplificação. No entanto, é crucial avançar para a reforma da tributação sobre a renda e o patrimônio, tornando-a mais progressiva (tributando lucros e dividendos, grandes fortunas e heranças). Um sistema mais simples e justo diminui o incentivo para buscar privilégios fiscais;
  • Fortalecimento de órgãos de controle e fiscalização: fortalecer órgãos como o Tribunal de Contas da União (TCU), a Controladoria-Geral da União (CGU), o Ministério Público (MP) e a Polícia Federal. Investir em tecnologia para análise de dados e cruzamento de informações para identificar padrões suspeitos de rent-seeking;
  • Aumento da transparência e abertura de dados: Disponibilizar dados detalhados sobre todas as etapas do orçamento (planejamento, execução, prestação de contas) em formatos abertos e acessíveis (APIs, planilhas). Detalhar os beneficiários de subsídios, isenções fiscais e contratos públicos. Explicar claramente os critérios e a justificativa para cada renúncia fiscal ou benefício concedido;
  • Revisão e otimização dos mecanismos de lobby: regulamentar a atividade de lobby no Brasil, exigindo registro de lobistas, divulgação de suas agendas e encontros com autoridades, e regras claras de ética e conduta. Isso não elimina o lobby, mas o torna visível e sujeito a escrutínio;
  • Melhora da qualidade do gasto público: avaliar periodicamente a eficácia e a eficiência de programas e políticas públicas. Redirecionar recursos de programas ineficazes ou com baixo retorno para aqueles que realmente geram valor para a sociedade.
O orçamento público brasileiro foi capturado por grupos de interesse há bastante tempo. Minimizar o rent-seeking no Brasil é um desafio hercúleo, mas essencial para construir uma economia mais justa, eficiente e próspera. Exige vontade política, reformas estruturais e o engajamento contínuo da sociedade para pressionar por mudanças e fiscalizar o uso do dinheiro público. O orçamento não deve ser um bolo a ser disputado por poucos, mas uma ferramenta para o bem-estar de todos os cidadãos.

Sávio Bertochi Caçador

É economista, doutor em Economia pela Ufes, professor e consultor

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