Mais uma vez abordarei o assunto do momento em economia: as tarifas sobre importações que os Estados Unidos estão erguendo contra o mundo, especialmente contra a China. No artigo anterior eu abordei os impactos dessas tarifas na economia global e no Brasil. Já neste eu falo dos efeitos desse aumento de tarifas para a economia do Espírito Santo.
Para fazer essa avaliação, eu levei em conta as “projeções dos impactos no Brasil da guerra tarifária entre Estados Unidos e China”, elaborado no último dia 13 de abril pelos colegas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG): Edson Domingues, João Pedro da Costa e Aline Magalhães. Os autores simularam os impactos por meio de um modelo de equilíbrio geral a partir das medidas anunciadas entre 7 e 11 de abril:
- Elevação das tarifas dos EUA das importações da China para 145% e de 10% para os demais países;
- Elevação para 25% da tarifa de importações de automóveis e aço nos EUA, de qualquer país;
- Elevação de tarifas da China das importações dos EUA para 125%.
A simulação da UFMG mostra o impacto no PIB dos estados das medidas tarifárias dos EUA e China. Com o impacto positivo na soja, a estimativa é de ganhos nos estados do Centro-Oeste e no Rio Grande do Sul. Os estados do Sudeste teriam as maiores perdas, dado o efeito na produção industrial e entrada de importações. No contexto brasileiro, os ganhos no Centro-Oeste praticamente equivalem as perdas estimadas nos estados do Sudeste.
E qual seria o possível impacto dessas tarifas para a economia do Espírito Santo? Segundo estimativa da UFMG, o estado teria uma queda de R$ 536 milhões no seu PIB (-0,29%), a 2ª maior em termos proporcionais dentre os 17 estados que teriam uma redução nos seus respectivos PIBs.
O que explica esse impacto proporcionalmente maior no ES? Em 2023, dos pouco mais de US$ 10 bilhões exportados pelo estado (o que equivale a quase 30% do PIB estadual), 28% foram para os EUA e 9,8% foram para a China, respectivamente primeiro e segundo lugar entre os seus parceiros comerciais.
O que o Espírito Santo mais exporta para os EUA? Aço (34%), rochas (20%), minério de ferro (13%) e celulose (13%). Esses quatro produtos somam 80% das exportações capixabas para os EUA.
E o que o Espírito Santo mais exporta para a China? Soja (48%), que vem do Centro-Oeste, celulose (24%), minério de ferro (11%) e rochas (6,6%). A soma desses três produtos exportados por empresas capixabas para a China é 42%. Deixei de fora dessa conta a soja, pois ela não é produzida no Espírito Santo e, como vimos antes, existe uma tendência de alta nas suas exportações.
De um modo geral, os setores capixabas produtores de commodities (petróleo e gás, aço, minério de ferro e celulose) seriam, em tese, os mais afetados pela desaceleração da economia causada pela redução do comércio global em função das tarifas de importação dos EUA.
Contudo, esses setores têm uma característica em comum: decisões de investimento e de produção são mais de longo prazo. Isto é, eles podem ter algum impacto no curto prazo por conta das tarifas, mas seu horizonte de planejamento é de longo prazo.
Além disso, todos esses setores têm grandes investimentos anunciados para o Espírito Santo:
- Siderurgia: investimento de quase R$ 4 bilhões da Arcelor Mittal para implantar um laminador de tiras a frio, que tende a ser mais destinado para o mercado interno brasileiro;
- Minério de ferro: Samarco está retomando sua produção e investindo, e a Vale promete investir R$ 6 bilhões na construção da EF-118;
- Oléo e gás: Petrobras anunciou quase R$ 35 bilhões em investimentos no ES até 2030 e a Energisa anunciou R$ 1 bilhão em investimentos para ampliar a sua rede de distribuição de gás;
- Celulose: a indústria brasileira de celulose tem um portfólio robusto de investimentos nos próximos anos e isso tende a aumentar a demanda por serviços da indústria metalmecânica capixaba.
E os setores produtivos genuinamente capixabas como rochas ornamentais e café? O setor de rochas está fazendo um movimento acertado de diversificar mercados e elegeu a China como grande mercado em potencial, dado a sua crescente urbanização.
Já o setor de café teve sua tarifa de importação nivelada em 10% por 90 dias, juntamente com o Vietnã, nosso principal concorrente. Caso a tarifa do Vietnã volte para os 46%, o café capixaba ganha ainda mais competitividade. Em paralelo, continuamos o movimento de agregar mais valor ao café com a implantação de fábrica de solúvel.
Com relação a importação de mercadorias, o Espírito Santo tem no setor atacadista uma força importante com cerca de 1,5 mil empresas que já representam aproximadamente 30% da arrecadação do ICMS estadual. A tendência é que com as tarifas dos EUA o setor atacadista capixaba pode ganhar mais relevância, pois existe uma possibilidade de o Brasil ser inundado por produtos importados, sobretudo da China.
Em síntese, a incerteza trazida pela política comercial de Trump pode atrasar um pouco os grandes investimentos previstos no Espírito Santo até 2030, mas não existe ainda motivos para crer que eles não vão mais ocorrer. Apesar das estimativas mostrarem um impacto negativo para a atividade econômica do estado no curto prazo por conta das tarifas dos EUA, a perspectiva de longo prazo continua positiva.