Há crônicas que começam com um café e outras com um número. Esta começa com ambos: o café quente da manhã e a sensação de que a economia andou – e anda – empurrada pelo consumo.
O modelo que explica isso é simples: quando famílias gastam mais, empresas produzem mais; quando o governo abre a carteira, a roda gira mais rápida. É o crescimento puxado pela demanda, em que o motor principal não é a fábrica ou a inovação, mas sim o apetite por bens e serviços.
Os números recentes ajudam a contar essa história. O PIB cresceu de forma consistente desde 2023, com um nível de produto próximo de R$ 13 trilhões. Programas públicos e linhas de crédito direcionadas injetaram fôlego extra, enquanto o Banco Central manteve os juros altos para segurar a inflação. Houve também sinais de melhora nas contas públicas em 2024, o que deu algum espaço para estímulos sem colapso imediato do orçamento.
Entre o primeiro trimestre de 2023 e o primeiro trimestre de 2026, os dados do IBGE reforçam o diagnóstico. O PIB acumulou alta de 8,3%, mas o destaque veio do consumo: a despesa das famílias cresceu 8,6% e a da administração pública 9,7%.
Em contraste, o investimento avançou apenas 2,3%, mostrando que a expansão da capacidade produtiva ainda é tímida. As exportações subiram 20,4% e as importações 14,7%, mas o que realmente sustentou o ritmo foi o gasto interno. É a fotografia perfeita de um crescimento que se apoia mais no bolso do consumidor e no caixa do governo do que na ampliação da produção.
Esse tipo de crescimento tem virtudes e riscos. No curto prazo, aquece emprego e renda. No médio prazo, sem ganhos de produtividade, o calor vira inflação. A resposta costuma ser o freio dos juros, que encarece crédito e desestimula investimento.
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Há também o risco fiscal: estímulos repetidos sem ajuste elevam a dívida e reduzem a margem para enfrentar crises. Por fim, a dependência do consumo e do crédito torna o ciclo vulnerável a choques externos e a mudanças de confiança.
Para que o crescimento deixe de ser apenas um sopro e vire motor duradouro, é preciso combinar demanda com oferta. Isso significa investir mais em infraestrutura, educação técnica e inovação; desenhar políticas industriais que incentivem mais pesquisa e produtividade; e consolidar as contas públicas de forma gradual e previsível. Reformas que simplifiquem impostos e reduzam o custo Brasil completam o quadro.
A crônica termina onde começou: com um café e um número. Crescer puxado pela demanda foi, para o Brasil recente, um remédio para recuperar atividade e emprego. Mas remédio não é vacina. Para que o país produza mais e melhor, sem depender só do consumo de hoje, é preciso dar ao motor da economia não apenas combustível, mas também engrenagens sólidas.