Quando pensamos em alguma edificação como patrimônio cultural do Espírito Santo, a imagem que nos vem à cabeça quase instantaneamente é a do imponente Convento da Penha, coroando a rocha em Vila Velha. E com toda razão! Mas neste Dia Nacional do Patrimônio Cultural, celebrado neste 17 de agosto, convido você a esticar o olhar um pouco mais ao norte e desembarcar em Nova Almeida, na Serra.
Ali, no topo de uma elevação, a Igreja dos Reis Magos permanece como uma das presenças mais marcantes e poéticas da paisagem cultural capixaba. Erguida entre o final do século XVI e o início do XVII por jesuítas e indígenas tupiniquins, a igreja é um dos exemplares mais relevantes da arquitetura colonial no Brasil.
Tombada pelo Iphan em 1943, ela guarda marcas profundas dos conflitos entre colonizadores e povos originários. O retábulo em madeira, o púlpito e a tela da Adoração dos Reis Magos, finalizada em 1701 e considerada uma das primeiras pinturas a óleo do país, revelam a riqueza artística que floresceu nesse território.
Acredito que a maior força deste monumento esteja na sua relação íntima com o lugar. A construção conversa diretamente com a foz do rio Reis Magos, os manguezais e a orla, assim como o Convento da Penha conversa com a Terceira Ponte e toda a paisagem que se descortina do alto. Na arquitetura colonial, essa implantação em pontos elevados favorecia o controle e a visibilidade; hoje, compreendemos que o nosso patrimônio e a nossa paisagem são inseparáveis.
Alguns podem pensar que patrimônio é algo para ser admirado de longe. Mas existem patrimônios que pulsam no cotidiano das pessoas. Isso porque o patrimônio cultural se manifesta de diferentes formas. Há o imaterial, presente nos saberes, no congo, na moqueca capixaba e no fazer das paneleiras, e o material, representado pelas igrejas, pelos casarões e pelas fortificações que fazem parte da nossa história. A Igreja dos Reis Magos é justamente um desses patrimônios materiais, cuja presença na paisagem mantém viva a memória desse lugar.
Mas há uma responsabilidade aqui que não podemos ignorar. A igreja existe há mais de 400 anos, mas sua permanência no futuro não está garantida apenas porque existe um documento assinado pelo Iphan dizendo que ela é tombada.
O tombamento é o primeiro passo. Proteger o nosso patrimônio edificado exige investimentos contínuos, rigor técnico e profissionais habilitados, como arquitetos, historiadores e tantos outros. Exige também políticas públicas estruturadas e, acima de tudo, o sentimento de pertencimento da população.
Preservar a Igreja dos Reis Magos e a paisagem que a envolve é reconhecer que a nossa história vai muito além do óbvio. O convite que faço é para contemplar e viver a arquitetura. Visite Nova Almeida, olhe para o rio do alto e ocupe esse espaço. Afinal, a memória do Espírito Santo só continua viva se nós decidirmos fazer parte dela.