Em ‘O mito de Sísifo’ (1942), Albert Camus partiu de uma pergunta instigante. Afinal, vale a pena viver quando a vida parece não oferecer um sentido definitivo? A resposta do filósofo francês não está na fuga da realidade, mas na aceitação do absurdo.
Para Camus, o ser humano busca ordem, coerência e significado, porém encontra um mundo frequentemente caótico, contraditório e indiferente às suas expectativas. A figura mitológica de Sísifo simboliza essa condição.
Condenado pelos deuses a empurrar uma enorme pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta ao ponto inicial, ele está preso a uma tarefa infinita e aparentemente inútil. No entanto, Camus nos sugeriu que imaginássemos Sísifo feliz, pois a felicidade estaria na consciência da própria condição e na decisão de continuar.
Creio que essa reflexão pode nos ajudar a compreender o momento político vivido pelo Brasil. O país tem experimentado uma sucessão de crises, escândalos, disputas ideológicas e ciclos de esperança seguidos de frustração.
Problemas estruturais não desaparecem: corrupção endêmica, desigualdades extremas, violência, baixa confiança nas instituições e dificuldades econômicas no cotidiano. Nesse contexto, o cidadão brasileiro frequentemente se assemelha à Sísifo.
Mudam os governos, os discursos e os protagonistas, porém as questões estruturais permanecem. As desigualdades estruturais brasileiras, por exemplo, não foram superadas e continuam profundas. Diferenças de renda por raça, gênero e território continuam marcantes.
A polarização política vigente intensifica essa sensação de absurdo. Para muitos brasileiros, a política passa a parecer um teatro repetitivo, no qual os personagens se alternam e o roteiro prático na vida cotidiana é semelhante.
Camus rejeitou tanto a ilusão de redenção total quanto o abandono da ação. Reconhecer que a política nunca produzirá uma sociedade perfeita não significa renunciar à participação democrática e cidadã.
Devemos agir sem a expectativa de uma vitória definitiva. A democracia não é uma pedra que chega ao topo e lá permanece; trata-se de um esforço cidadão e coletivo contínuo de vigilância, negociação e reconstrução.
Sob essa perspectiva, o maior risco para o Brasil talvez seja a perda da disposição coletiva para continuar empurrando a pedra. Quando cidadãos deixam de acreditar na política, nas instituições ou no diálogo democrático, abre-se espaço para soluções autoritárias que vendem ilusões.
Camus nos lembra que a maturidade política nasce da consciência dos limites humanos. Nenhum governante, partido ou ideologia será capaz de eliminar definitivamente os problemas da sociedade. Ainda assim, vale a pena continuar aperfeiçoando institucionalmente a democracia.
A grandeza da experiência democrática está em preservar a capacidade de recomeçar. Assim como Sísifo, o Brasil parece condenado a subir inúmeras vezes a mesma montanha. Camus nos ensina que a caminhada depende da lucidez, da resistência e da recusa em desistir.
Sabemos que a trajetória histórica brasileira é complicada em termos democráticos. Conforme apontou o cientista político Fernando Abrucio, em artigo no Valor Econômico, de 16 de outubro, “foram predominantes o autoritarismo e formas oligárquicas, com exclusão de muitos atores da participação política plena e acesso privilegiado ao poder para determinadas elites”.
O acadêmico avaliou diversos problemas vigentes no funcionamento das instituições brasileiras em seu artigo. Ele destacou que “é fundamental ter controles institucionais fortes sobre os eleitos, bem como sobre outros agentes políticos e burocráticos”.
Passados 38 anos desde a promulgação da “Constituição Cidadã”, a ordem democrática ampliou direitos políticos, civis e sociais. Analfabetos passaram a participar das eleições, povos indígenas conquistaram maior proteção e foram criados mecanismos inéditos de defesa dos direitos das mulheres, embora o feminicídio ainda seja uma grave realidade.
Quem se elegeu recentemente com uma agenda que prevê o corte de direitos e de programas sociais bem avaliados, provavelmente experimentará uma forte perda de apoio popular. Esse é um dos legados duradouros da Constituição de 1988, difícil de ser revertido enquanto a democracia, ainda que problemática em diversos aspectos, permanecer vigente.