Dados divulgados pelo jornal Valor Econômico, no dia 30 de setembro, revelam uma realidade bem preocupante. A classe média de renda brasileira está afundada em dívidas que chegam a seis vezes a sua renda mensal.
Não se trata de um caso de tropeço de indivíduos. Trata-se do caso de um país que exige muito de quem trabalha, mas devolve pouco em termos de estabilidade, renda e perspectivas. Mais de 60% dos endividados têm ensino superior ou pós-graduação.
São pessoas que seguiram o roteiro clássico da mobilidade social. Estudaram, investiram em formação, buscaram qualificação, porém encontram-se presas a dívidas que se acumulam em cartões, bancos e fintechs.
Essa dura realidade desmonta a narrativa de que o endividamento é fruto de descontrole ou consumo irresponsável. A classe média busca sobreviver em um país no qual o nível de preços devora parte considerável dos salários. Empregos de qualidade são escassos.
Os preços dos serviços essenciais, a moradia cara, a alimentação e a saúde privatizada compõem um cenário em que o salário real se deprecia mensalmente. O diploma, que deveria abrir portas, tem servido apenas para abrir limites de crédito.
O mercado de trabalho brasileiro absorve graduados em vagas precarizadas, com salários achatados e pouca perspectiva de crescimento. A promessa de que “estudar muda tudo” se cumpre cada vez menos e, quando não se cumpre, o crédito aparece como paliativo.
A cultura do parcelamento não é sinal de ignorância financeira. O problema é que, ao longo do tempo, o parcelamento que cabe no orçamento se transforma em uma soma impagável, invisível até que a inadimplência bate à porta.
O Brasil tem uma classe média de renda precária e que vive em permanente tensão. Preços altos, salários baixos e crédito abundante, mas caro. O endividamento é a consequência de um modelo econômico que desvaloriza os trabalhadores.
Nesse sentido, as políticas públicas precisam enfrentar dois desafios: 1) reduzir o custo de vida, especialmente nos serviços essenciais; 2) elevar a qualidade dos empregos, com produtividade crescente e remuneração compatível. A classe média brasileira está endividada porque o modelo econômico vigente insiste em cobrar caro e pagar mal.
Um ajuste macroeconômico regressivo não melhoraria o quadro descrito acima. Ele poderia inclusive reforçar o poder de mercado em alguns setores com forte influência sobre as orientações do ajuste. Esse é o caso do desastre argentino, guardadas as devidas proporções.