Em seu novo relatório, “Desigualdade S.A. – Como o poder corporativo divide nosso mundo e a necessidade de uma nova era de ação pública”, a Oxfam trouxe elementos que merecem discussão entre nós. Afinal, a crise das democracias liberais testemunha a emergência de uma nova aristocracia econômica, enquanto bilhões de pessoas sofrem para sobreviver em meio a pobreza, fome, guerras e austeridade econômica.
O seu sumário executivo pode ser facilmente encontrado no meio digital. De acordo com o relatório, “uma imensa concentração do poder das grandes empresas e monopólios em nível global está exacerbando a desigualdade em toda a economia”. Em síntese, “ao pressionar os trabalhadores, evitar o pagamento de impostos, privatizar o Estado e contribuir para o colapso climático, essas empresas estão impulsionando a desigualdade e agindo a serviço da entrega de cada vez mais patrimônio a seus donos, já ricos”.
Bernie Sanders, senador dos Estados Unidos da América, escreveu no prefácio do relatório que “apesar dos enormes aumentos na produtividade do trabalho e de uma explosão nas tecnologias, os salários reais médios no país são mais baixos hoje do que eram há 50 anos”. Esse, segundo o relatório, não é um problema exclusivo dos Estados Unidos.
Conforme consta no relatório, “uma era de desigualdade crescente coincidiu com um estreitamento da imaginação econômica”. Estive recentemente na Argentina por alguns dias e pude ver de perto o ajuste macroeconômico em curso, que desregulou setores sensíveis para a população e fez a inflação explodir nos primeiros 30 dias da nova administração.
Javier Milei, presidente argentino, festejou dizendo que se a inflação nos seus 30 primeiros dias de governo está mais perto de 25%, então se trata de um êxito tremendo. O arrocho argentino protege a casta econômica, os mais ricos, empobrecendo trabalhadores e aposentados. A fome de crianças em situação de vulnerabilidade está sendo objeto de matérias na imprensa e já dizem nas ruas de Buenos Aires que o governo Milei terá dificuldade de passar do mês de março.
Para a Oxfam, estamos em uma década de divisão, pois “em apenas três anos, vivemos uma pandemia global, guerra, uma crise no custo de vida e o colapso climático”. Em termos presentes, “os preços estão aumentando mais do que os salários em todo o mundo, com centenas de milhões de pessoas vendo seus rendimentos comprarem menos todos os meses e suas perspectivas de um futuro melhor desaparecerem”.
Um mundo maravilhoso para poucos? A Oxfam destaca a relação entre riqueza extrema e poder de mercado empresarial. Em suma, “os lucros das megacorporações são usados para beneficiar os acionistas, à custa de trabalhadores e pessoas comuns”. Reformas tributárias que combatam tais situações são necessárias em diversos países, inclusive no Brasil.
Sobre o poder de mercado das grandes empresas, o relatório afirmou que elas influenciam os nossos salários, os preços dos alimentos e dos medicamentos, por exemplo. Tal poder, segundo a Oxfam, foi entregue pelos governos, que permitiram a concentração de mercado em setores sensíveis para a população.
O declínio histórico dos salários reais poderá aumentar a desigualdade e a agitação social em diversos países, alertou a Organização Internacional do Trabalho (OIT), em 2022. Conforme já destaquei em artigos anteriores, as democracias liberais, ainda que oligárquicas, estão e continuarão em risco.
Colunista do portal UOL, Jamil Chade, recordou, no dia 6 de janeiro, que “em julho de 2022, uma reunião entre os chefes da pasta de Defesa do Brasil e dos EUA sinalizou aos militares em Brasília que eles não teriam o respaldo de Washington, caso optassem por uma aventura golpista”. Não foi bem a “força” das nossas instituições que assegurou a democracia.