Sentidos sociais do trabalho dizem respeito às dimensões sociais, culturais e simbólicas que envolvem a atividade laboral na sociedade contemporânea. Diversos sociólogos e teóricos sociais têm explorado esses sentidos ao longo do tempo. Farei alguns breves comentários sobre o assunto, destacando o controverso conceito de “trabalhos inúteis”.
O trabalho desempenha um papel crucial na formação das identidades pessoais e sociais. A ocupação contribui para a construção da autoimagem e para a definição do “lugar” dos indivíduos na sociedade. O tipo de trabalho que uma pessoa realiza muitas vezes determina o seu status social e o respeito que ela recebe na sociedade.
Muitos indivíduos buscam algum significado no trabalho através da percepção de que estão contribuindo para o bem maior da sociedade. Nesse sentido, as profissões que têm um impacto positivo na comunidade costumam proporcionar um maior senso de propósito para os indivíduos.
A definição de trabalhos inúteis pode variar dependendo do contexto e das opiniões pessoais. Em geral, a expressão refere-se a atividades ou empregos que não contribuem significativamente para o progresso, a produtividade ou o bem-estar da sociedade. Alguns podem considerar trabalhos inúteis como aqueles que não geram valor tangível, que são redundantes, ou que poderiam ser automatizados.
Deve-se ressaltar que a percepção de utilidade é subjetiva, pois a definição de inutilidade é influenciada por diferentes perspectivas, incluindo a econômica, a social e a ética. Afinal, um trabalho que não resulta em produtos tangíveis pode, por exemplo, ainda ter algum valor social, emocional ou cultural.
Em síntese, o conceito de trabalhos inúteis é complexo e pode ser interpretado de várias maneiras, dependendo das visões individuais e das condições específicas de cada situação. Destaco o artigo escrito pelo professor Matteo Tiratelli, que leciona sociologia na University College London, e que foi publicado na edição digital da revista Jacobin Brasil, no dia 13 de dezembro.
O artigo em questão discute a teoria de David Graeber sobre o assunto. Segundo Graeber, o distanciamento da produção em direção a indústrias extrativistas e a financeirização das economias levou ao crescimento de serviços corporativos sem sentido, de ocupações inúteis. Tal fato teria desestruturado muitas organizações, que, de outra forma, poderiam ter alocado recursos em atividades socialmente mais úteis e produtivas.
A teoria de Graeber, de acordo com Tiratelli, “tem como premissa um aumento de longo prazo na quantidade de besteiras na economia, com um setor corporativo crescente repleto de trabalhadores desanimados”. Empregos considerados desagradáveis, mal remunerados, monótonos, estressantes, ou que oferecem condições de trabalho precárias, integram a lista dos trabalhos analisados.
David Graeber, antropólogo e acadêmico norte-americano falecido em 2020, ficou conhecido por suas análises críticas sobre o trabalho, especialmente em seu livro "Bullshit Jobs”. Nesse livro, Graeber argumentou que muitos empregos na sociedade contemporânea são inúteis, redundantes e não contribuem efetivamente para a produção de bens e serviços necessários para o bem-estar das sociedades.
O fato é que os sistemas econômicos não estão orientados para satisfazer as reais necessidades humanas. Nesse sentido, a teoria de Graeber provoca interessantes discussões sobre a natureza do trabalho contemporâneo, sobre como a automação e as mudanças econômicas afetam a distribuição de empregos. Três questões merecem reflexão. Trabalho útil para quem? Há desperdício na forma de trabalho inútil e improdutivo? Cui bono?