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Análise

Dependência exportadora no Brasil e na América Latina

Em artigo publicado na "Deutsche Welle Brasil", o jornalista Alexander Busch questionou o que seria do Brasil caso o país se tornasse apenas um exportador de matérias-primas

Publicado em 01 de Novembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

01 nov 2021 às 02:00
Rodrigo Medeiros

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Rodrigo Medeiros

Em um interessante artigo publicado na "Deutsche Welle Brasil" no dia 15 de outubro, o jornalista Alexander Busch trouxe reflexões oportunas para o presente. Ele questionou o que seria do Brasil caso o país se tornasse apenas um exportador de matérias-primas. Citando fontes e dados, o autor ressaltou que as matérias-primas constituíram quase 70% das exportações brasileiras entre janeiro e setembro de 2021.
Não é novo o diagnóstico da desindustrialização precoce e de suas consequências entre nós. Segundo Busch, “a desindustrialização crescente causa profundas mudanças negativas na sociedade, como menos empregos e pesquisa”. O autor destacou que o Brasil está virando uma grande fazenda e que tal fato coloca o “Brasil na contramão de uma sociedade de classe média”.
A maioria dos produtos exportados pelo Brasil origina-se de fazendas, minas e do fundo do mar e “a tendência crescente é o país exportar matérias-primas não processadas, sem qualquer valor agregado”, ponderou o autor. O empobrecimento popular já é a triste realidade brasileira em um tempo no qual muitas famílias buscam restos de alimentos para comer e milhões vivem a insegurança alimentar.
Uma dependência exportadora de matérias-primas, de acordo com Busch, “é negativa devido às transformações estruturais que acarreta”, pois ela “cria relativamente poucos empregos”. Seguindo esse caminho, continuou o autor, “a economia brasileira disponibilizará vagas de trabalho cada vez menos exigentes, que tampouco dependem necessariamente de pesquisa e desenvolvimento em universidades e institutos especializados”.
Do ponto de vista histórico-estrutural, Busch foi enfático ao afirmar que “a Europa, os EUA e, por último, a Ásia foram sociedades que começaram como produtoras de matérias-primas, mas se tornaram sociedades de classe média graças à própria industrialização”. Na América Latina, segundo o Latinobarómetro, quase 80% dos latino-americanos consideram injusta a distribuição de riquezas nos países da região e, no Brasil, 71% consideram que se governa para grupos poderosos em benefício próprio.
No clássico livro “Dependência e Desenvolvimento na América Latina” (1970), de Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, publicado pela Zahar Editores no Brasil, os autores apontaram que “o perfil da estrutura nacional de dominação só se compreende quando se concebe os grupos exportadores – plantadores, mineradores e banqueiros – exercendo um papel vital de ligação entre a economia central e os setores agropecuários tradicionais”.
Manobra de navio carregado com containers no Porto de Vitória
As matérias-primas constituíram quase 70% das exportações brasileiras entre janeiro e setembro de 2021 Crédito: Vitor Jubini
As ambiguidades das instituições públicas nacionais na região derivam de estruturas historicamente formadas pela “expansão para fora”. Os grupos “modernizadores” tiveram origem no sistema econômico exportador. Segundo Cardoso e Faletto, “o desenvolvimento da produção para a exportação em grande escala foi resultado direto da formação de enclaves” depois da formação dos Estados nacionais na virada do século XIX para o século XX. Enclaves, por sua vez, coexistiram com setores econômicos controlados por oligarquias tradicionais.
Os sociólogos destacaram então dois tipos de enclaves históricos na América Latina: o mineiro e o agrícola. Do ponto de vista do mercado mundial, ressaltaram os autores, “as relações econômicas são estabelecidas no âmbito dos mercados centrais”. Eles destacaram ainda que, a partir da década de 1950, a América Latina viveu a penetração do capital estrangeiro nos processos produtivos de substituição de importações industriais e golpes civil-militares para “resolver impasses”. As reformas brasileiras após o golpe de 1964 foram regressivas e concentraram rendas e riquezas no topo. O processo de redemocratização não mexeu nesse vespeiro.
O caráter regressivo da tributação nos países da América Latina, suas desigualdades sociais extremas e a evasão fiscal são fatos conhecidos. Nesse sentido, o recente escândalo internacional dos Pandora Papers, sobre a presença de vultosos recursos financeiros de autoridades e empresários em paraísos fiscais, merece maiores discussões e reflexões. O reformismo regressivo vivido desde 2016 não aponta para a luz no fim do túnel, pois a fome, a insegurança alimentar e a precarização laboral integram o dramático quadro estrutural no Brasil.

Rodrigo Medeiros

É professor do Instituto Federal do Espírito Santo. Em seus artigos, trata principalmente dos desafios estruturais para um desenvolvimento pleno da sociedade

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