Um artigo publicado no site da revista Piauí, “A democracia na roleta russa” (22 fev. 2025), de Pedro Lange Machado, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), trouxe elementos interessantes para o debate público. Citarei algumas passagens do interessante artigo e farei alguns breves comentários.
De acordo com o pesquisador, “a popularidade dos que querem implodir a democracia é uma realidade, e resulta não de erros táticos do campo democrático, mas de um processo longo e sistêmico, que pode ser examinado em três etapas”. A primeira etapa diz respeito à formação de uma hegemonia da agenda defendida pelo mercado financeiro, conhecida como neoliberalismo. Nesse sentido, a globalização financeira estreitou a margem de manobra dos governos nacionais que buscavam fugir dessa agenda.
A segunda etapa do processo foi a de reação popular. Segundo Machado, “a globalização prometeu desenvolvimento e prosperidade, mas o que se passou a observar, ao menos no mundo ocidental, foi uma crescente concentração de renda, acompanhada de recorrentes instabilidades financeiras e macroeconômicas (que inviabilizam o crescimento e o desenvolvimento) e do desmonte das políticas de bem-estar social”. A distopia neoliberal cancelou o futuro para muitas pessoas em diversos países.
Populistas de extrema direita estão se fortalecendo. Após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e principalmente após a dissolução da União Soviética, em 1991, com o fim das experiências do socialismo real, o Estado de bem-estar social capitalista havia perdido a sua utilidade de contenção. Para manter o sistema capitalista vigente, que vive em crise permanente, a democracia liberal conseguirá resistir aos avanços das novas formas de fascismo?
Conforme ponderou o pesquisador, “a terceira etapa desse processo é o estado de negação em que o campo democrático se encontra”. Machado afirmou que “a crise da democracia está associada à hegemonia do neoliberalismo progressista, que não só não é capaz de entregar a prosperidade que promete como acentua problemas sociais e interdita alternativas para solucioná-los”. Estamos vivendo esse drama no Brasil.
A agenda neoliberal concentra a riqueza e é altamente benéfica para as elites econômicas. Citando o Latinobarômetro, o pesquisador apontou para o fato de que o apoio à democracia está abaixo da média histórica pós-redemocratização na América Latina. A extrema direita cresce nesse clima de insatisfação, inclusive se mostrando disposta a promover golpes de Estado e medidas de exceção.
“Em 2022”, avaliou o pesquisador, “os Estados Unidos sob Biden foram fundamentais na contenção do golpismo no Brasil”. Poderemos contar com algo do gênero em 2026? Machado concluiu afirmando que “sem que haja governança e articulação global, os países não serão capazes de lidar individualmente com a crise da democracia, cuja sobrevivência, no estado de inércia atual, está à mercê das circunstâncias”. Não nos afastamos definitivamente do abismo.